Consultório
O doente quis ajudar o diagnóstico.
Contou coisas antigas,
íntimas,
minuciosas.
O médico sacudia a cabeça,
um pouco distraído.
O doente voltou a contar.
Pôs uma vírgula que faltava.
Tirou lá de um canto da memória
Um pormenor que ficara na sombra.
O médico sacudia a cabeça.
No seu dedo, a esmeralda resplandecia.
Do tamanho de um grão de milho.
E luminosa como um domingo ao ar livre.
O doente acabara a narrativa.
A confissão.
Era um doente bem-intencionado.
Um homem de consciência.
O médico levantou-se e disse:
“Muito bem. Aqui o aparelho é que vai falar a verdade.”
E começou a copiar os sinais que a máquina ditava.
A máquina sabia mais que o doente.
A máquina sabia mais que o médico.
A máquina sabia mais que a vida.
A máquina sabia mais do que Deus.
Cecília Meireles.
MEIRELES, Cecília. Poesia Completa, volume 3, p.195. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997
