eBOOK – Livro Portas Abertas: a poética do cotidiano

 

ACESSE O EBOOK NO LINK

https://view.publitas.com/p222-15785/livro-portas-abertas-a-poetica-do-cotidiano-noemi-nascimento-ansay/page/1

Em 2010 depois de compilar textos que estavam espalhados em pastas do meu computador, fruto de indagações, pensares e afetos, lancei o livro Portas Abertas: a poética do cotidiano. Uma produção feita a muitas mãos, agradeço a designer finlandesa MARI SUOHEIMO que fez a capa, cedeu lindas imagens e formatou este ebook, a minha amiga Profª Drª SÍLVIA ADREIS WITKOSKI que fez a revisão geral, a minha amiga e professora MARIANA ARRUDA, que fez a editoração e a querida Ana Maria Feres que fez a revisão dos textos.

Dos 600 livros impressos, hoje só tenho um na prateleira. O que aprendi nestes 7 anos, com meu primeiro livro:

– Não espere outras pessoas para concretizar seus planos.
– Faça algo com planejamento e dentro de suas possibilidades financeiras.
– Conte com seus amigos e amigas, como leitores e apoidores.
– Permita-se acertar e errar. E como já dizia Leminsky:

inverno
primavera
poeta é
quem se considera

 

XVII ENPEMT e IX ENEMT na UFG

Bacharelado de Musicoterapia, professoras, egressos e estudantes.

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Participei da mesa redonda “Musicoterapia no percurso da vida”, junto com a Professora Dra. Melissa Mercadal-Brotons  ( Presidente da Word Federation of Music Therapy) e o Professor Dr. Diego Schapira, Programa Adim Musicoterapia no XVII EMPEMT e IX ENEMT foi um desafio e uma honra.

Meu trabalho se intitulou: ” O que as pesquisas em Musicoterapia falam sobre a infância e adolescência?

ENPEMT 14 de outubro titulo

ENPEMT 14 de outubroFalei a respeito de três aspectos: música da infância e adolescência,  tendências e singularidades das pesquisas sobre infância e adolescência: um panorama do VI CLAM e e do XV Congresso Mundial de Musicoterapia, perspectivas futuras e possíveis agendas de pesquisa.Espero em breve, publicar um artigo, sobre os resultados.

Gratidão pela oportunidade de compartilhar conhecimentos  e estreitar laços de amizade.

Harumi Murakami

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答えたひと 村上春樹 絵 フジモトマサル

Me encanta a ideia de ler autores dos lugares para onde viajo, conhecer por meio dos seus olhos nativos, curiosos e no caso do Haruki Murakami, olhos orientais. Antes de embarcar para o Japão, parada obrigatória em uma livraria. Sai de lá bem acompanhada: ” Ouça a canção do vento – Pinball, 1973″.

Ele começa seu livro primogênito contando que em sua vida, tudo aconteceu de trás pra frente, o esperado era estudar, trabalhar e casar, ele casou, trabalhou e depois foi estudar. Montou um restaurante com sua esposa e escreveu ali mesmo, seu primeiro livro. Sua escrita é ligeira, frases curtas, povoada de personagens  que parecem transitar entre o sonho e a realidade, o texto traz muitas referências musicais ( principalmente pop e jazz) e a forma como retrata a vida em uma metrópole, prendem os leitores, que se rendem ao seu talento de conhecer de perto a intimidade cotidiana dos humanos.

“Para mim, escrever é penoso. Às vezes, passo um mês inteiro sem conseguir escrever uma linha seque. Ou, então, escrevo por três dias e três noites sem parar só para me dar conta, no fim, de que está tudo errado.

Ainda assim, escrever também pode ser divertido. Atribuir sentido à vida é muito fácil se compararmos ao quanto é difícil vivê-la de fato.

Acho que era adolescente quanto percebi isso, e fiquei tão surpreso que passei uma semana sem abrir a boca. Senti que, se eu agisse certo, o munto inteiro obedeceria às minhas vontades, e que eu poderia inverter todos os valores, mudar a direção do tempo.

Infelizmente, só descobri muito tempo depois que isso era uma armadilha. Tracei uma linha no centro de uma folha de caderno e escrevi no lado esquerdo tudo o que havia ganhado e, no direito, o que havia perdido. No fim das contas, eu havia perdido tanto – coisas que eu havia abandonado, sacrificado, traído – que não tive espaço suficiente para terminar a lista.

Há um fosso profundo entre as coisas das quais gostaríamos de ter consciência e aquilo que realmente temos. Nem a régua mais comprida conseguiria medir a profundidade desse fosso. O que eu poderia registrar aqui é apenas uma lista. Não é um romance, nem literatura, muito menos arte. É apenas um caderno, com uma única linha traçada no centro. Até pode ser que ele tenha algum tipo de moral.

Se você estiver procurando arte e literatura, o melhor é ler os gregos. Porque, para criar arte de verdade, é indispensável um regime escravocrata. Como na Grécia antiga: os escravos arando os campos, preparando a comida, remando os barcos e, em meio a eles, os cidadãos absortos pela poesia, dedicados à matemática. A arte é isso.

Há um limite para o que pode ser escrito por um sujeito que vasculha a geladeira na cozinha às três horas da manhã enquanto o mundo dorme.

É esse o meu caso.”

(MURAKAMI, 2016, p. 24-25)

Site do Escritor Haruki Murakami

E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.

Haruki Murakami

 

Cão e Gato

Tenho um cão e um gato

que há tempos amigos são

partilham o mesmo prato

sem nenhuma hesitação.

 

O cão é fiel amigo

O gato não tem coração

O cão atento comigo

O gato sem preocupação.

 

Cada bicho do seu lado

chamando minha atenção

não quero ser partidária

mas acabo em confusão.

 

O cão procura faceiro

pela minha aparição

o gato dorme sereno

bem debaixo do meu colchão.

 

Noemi N. Ansay

Surdos no Hospital

Curso Básico de Libras ” O atendimento da Comunidade Surda para profissionais da área médico hospitalar”,  no dias 6 e 7 de maio de 2017, evento promovido pela LASfaC – Liga Acadêmica de Saúde da Família e Comunidade/Unirio

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Livro: Portas Abertas – Poética do Cotidiano – Noemi N. Ansay – 2010

CAPA (2) 1

Portas AbertasLIVRO Portas abertas – a poética do cotidiano

Publiquei o livro  “Portas Abertas” em 2010. Meu objetivo era revelar a poética do cotidiano, a vida que se desnuda nas mínimas coisas, na vida das pessoas, dos lugares, e a busca pelo Divino.
Esse livro foi a expressão de uma ousadia pessoal, foi uma produção independente e autofinanciado.
Hoje me dei conta, que só tenho um exemplar, dos 600 impressos, a maioria consegui vender e doei alguns para pessoas especiais em minha vida.Por isso decidi colocar o arquivo em pdf no meu blog.
A quem desejar, boa leitura!!!!

Imagens: Mari Suoheimo

Anjos de Khan Sheikhoun

Anjos de Khan Sheikhoun [i]

 

Minha doce criança:

- Hoje, quando o sol se pôr,

a insanidade dominará os homens,

as trevas cobrirão a terra e cairá sobre a cidade uma nuvem mortífera,

que invadirá, sem pedir licença, os corpos, as casas e as ruas.




E se despertares, meu anjo querido,

sentirás em teu frágil corpo,

o ataque brutal dos senhores da guerra,

a intolerância, o ódio e a fúria da ganância humana.




O gás da morte te fará sofrer,

sentirás falta de ar e náuseas,

é possível que tuas mãozinhas e pezinhos tremam

e teus brilhantes olhinhos ardam muito.




Eu bem sei, pequena criança,

que não será nada fácil

e que lutarás com todas as tuas forças para viver,

até o último momento, até o último suspiro.




Ah, minha querida criança, como desejarei que vivas,

para testemunhares que o ódio não compensa,

mas, se não o puderes, parta em paz,

uma multidão de anjos te espera,

não tens culpa da barbárie humana.




Envergonhada e constrangida só te faço uma prece:

-Perdoa a humanidade,

perdoa os povos da Terra,

perdoa os adultos que não te protegeram,

perdoa a insensatez dos burocratas,

perdoa nossa incapacidade de amar.




-Perdoa e com teu coração puro

nos liberte do ódio,

nos ensine que a vida é uma dádiva,

que para ser feliz não precisamos de muito,

que uma vida tem um valor incalculável,

que o ódio só produz ainda mais ódio,

mas o amor, ah o amor é que nos humaniza

e nos aproxima da natureza divina.




[i]  In memorian das 27 crianças , mortas no dia 04/04/2017, por ataque químico ( gás sarin) na cidade de Khan Sheikhoun na Síria.

CHRISTINE SUN KIM The enchanting music of sign language

 

Transcrição em Português da palestra

Intérprete: Piano, “p,” é o meu símbolo musical favorito. Significa tocar suavemente. Se estamos tocando um instrumento, e percebemos um “p” na partitura, precisamos tocar suavemente. Dois p’s, mais suave. Quatro p’s, extremamente suave. Esse é o meu desenho de uma árvore de p, que demonstra não importa quantos milhares de p’s possam existir, nunca se atingirá o silêncio completo. Essa é a minha atual definição de silêncio: um som quase imperceptível.

0:55Gostaria de falar um pouco sobre a história da Língua de Sinais Americana, ASL, e também um pouco da minha própria história. A língua de Sinais Francesa foi trazida para América no início dos anos 1800, e com o passar do tempo, se misturou com sinais locais, e evoluiu para o que hoje conhecemos com ASL.Então ela tem uma história de cerca de 200 anos.

1:22Eu nasci surda, e me ensinaram a crer que som não fazia parte da minha vida. E acreditei que era verdade. Agora eu sei que não era o caso. Som era sim parte da minha vida, está no meus pensamentos todo dia. Sendo uma pessoa surda vivendo em um mundo de som, era como se eu vivesse em um país estrangeiro, cegamente seguindo suas regras, costumes, comportamentos e normas sem nunca questionar.

2:12Então como eu compreendo som? Bem, eu observo como as pessoas se comportam e reagem ao som.Vocês são como meus alto-falantes e amplificadores. Eu aprendo e imito esse comportamento. Ao mesmo tempo, compreendi que eu também crio som e eu vi como as pessoas respondem a mim. Então eu aprendi, por exemplo: “Não bata a porta!” “Não faça muito barulho quando está comendo batatas fritas no pacote!”

2:43″Não arrote, e quando estiver comendo, não raspe seus talheres no prato.” Todas essas coisas eu chamo de “etiqueta de som”. Talvez eu pense mais sobre etiqueta de som do que uma pessoa que ouve pensa. Sou hipervigilante perto de sons. E estou sempre à espera, numa antecipação nervosa do que vai acontecer com o som.

3:12Por isso esse desenho. TBD, a ser decidido. TBC, a ser continuado. TBA, a ser anunciado. E percebam na pauta: não existem notas nas linhas. Isso porque as linhas já contêm som através de manchas e borrões sutis.

3:39Na cultura surda, movimento equivale a som. Esse é o sinal para “pauta” em ASL. Uma pauta típica contém cinco linhas. Ainda assim, sinalizar com o dedão para cima não parece natural. Por isso podem perceber nos meus desenhos, que uso quatro linhas no papel.

4:04Em 2008, tive a oportunidade de viajar para Berlim, Alemanha, para uma residência artística. Antes disso, eu trabalhava como pintora. Durante aquele verão, visitei diferentes museus e galerias, e enquanto ia de um lugar para outro, percebi que não havia artes visuais lá. Naquela época, som era tendência, e isso me impressionou… não havia artes visuais, tudo era auditivo.

4:36Agora o som entrou para o meu território na arte. Isso irá me distanciar mais da arte? Percebi que isso não precisa acontecer. Eu conheço som. O conheço tão bem que não precisa ser apenas uma experiência auditiva. Ele pode ser sentido pelo tato, pode ser percebido como visual, ou mesmo como uma ideia.

5:04Então decidi recuperar a posse do som e o usar na minha prática artística. E tudo que me ensinaram sobre som, decidi descartar e desaprender. Comecei a criar um novo trabalho. E quando o apresentei para a comunidade artística, fiquei deslumbrada com o apoio e atenção que recebi. Eu percebi: som é como dinheiro, poder, controle; valor social. No fundo, sempre acreditei que som fosse algo seu, algo de pessoas que ouvem. E som é tão poderoso que poderia desempoderar a mim e ao meu trabalho, ou me empoderar. Escolhi me empoderar.

6:07Existe uma cultura enorme em torno da língua falada. E porque não uso literalmente minha voz para me comunicar, aos olhos da sociedade é como se eu não tivesse voz. Então preciso trabalhar com pessoas que me tratem de igual para igual e se tornem minha voz. Dessa forma, consigo manter relevância na sociedade de hoje.

6:35Então na escola, no trabalho e em instituições, trabalho com vários intérpretes de ASL. E suas vozes se tornam minha voz e identidade. Eles me ajudam a ser ouvida. E suas vozes têm valor e aceitação.Ironicamente, ao me valer de suas vozes consigo manter uma forma temporária de aceitação, quase como pegar um empréstimo com elevada taxa de juros. Se eu não continuasse com essa prática, sinto que poderia sumir no esquecimento e não ter nenhuma forma de valor social.

7:28Então, tendo o som como meu novo meio de arte, mergulhei no mundo da música. Fiquei surpresa ao descobrir as semelhanças entre música e ASL. Por exemplo: uma nota musical não pode ser totalmente captada e expressa no papel. E o mesmo se aplica a um conceito em ASL. Ambos são altamente espaciais e modulados, o que significa que pequenas mudanças podem alterar todo o significado dos sinais e sons.

8:10Gostaria de compartilhar com vocês uma metáfora de piano, para que tenham uma melhor compreensãode como a ASL funciona. Então imaginem um piano. ASL é dividida em vários parâmetros gramaticais diferentes. Se atribuirmos um parâmetro diferente a cada dedo, como se faz no piano, como expressões faciais, movimentos do corpo, velocidade, formato da mão e assim por diante, como se faz no piano. O inglês é um idioma linear, como uma tecla pressionada por vez. Porém, ASL é mais como um acorde:todos os dez dedos devem pressionar simultaneamente para expressar um conceito ou ideia claros na ASL. Se uma das teclas mudasse o acorde, criaria um significado completamente diferente. O mesmo se aplica à música em relação a tom, timbre e volume. Na ASL, valendo-nos de vários parâmetros gramaticais, podem ser expressas diversas ideias.

9:16Por exemplo, o sinal OLHAR-PARA. Esse é o sinal OLHAR-PARA. Estou olhando para

9:51Então pensei: “E se eu olhasse para ASL por uma lente musical?” Se eu criasse um sinal e o repetisse várias vezes, poderia se tornar algo como música visual. Por exemplo, esse é o sinal para “dia,” como o sol levanta e se põe. Esse é “o dia todo.” Se eu fosse repetir e desacelerar, visualmente parece música.Dia… todo. Acredito que o mesmo se aplica a “noite toda.” “Noite toda.” Isso é NOITE-TODA, representada nesse desenho. Isso me fez pensar em três tipos de noite: “noite de ontem,” “durante a noite,” (Cantando) “a noite toda.”

11:06Creio que o terceiro tem mais musicalidade que os outros dois.

11:12Isso representa como o tempo é expressado na ASL e como a distância do seu corpo pode expressar mudanças no tempo. Por exemplo, 1H é uma mão, 2H são duas mãos, o tempo presente acontece mais próximo e em frente ao corpo, o futuro é na frente do corpo, e o passado às suas costas O primeiro exemplo é “muito tempo atrás.” Então “passado,” “costumava” e o último, que é meu favorito, com uma noção bem romântica e dramática, “era uma vez.”

11:56″Tempo comum” é um termo musical com assinatura de tempo específica de quatro batidas por compasso. Mas quando eu vejo as palavras “tempo comum,” o que vem à minha cabeça automaticamente é “ao mesmo tempo.” Então percebam RH: mão direita, LH: mão esquerda. Temos a pauta na cabeça e no peito.

 

12:24Agora vou demonstrar um formato de mão chamado “Flash Claw” Vocês podem me acompanhar, por favor? Todo mundo, mãos para cima. Agora vamos fazer na cabeça e no peito, como “tempo comum” ou “ao mesmo tempo”. Sim, conseguiram. Isso significa “se apaixonar” na Língua de Sinais Internacional

12:52Língua de Sinais Internacional, como uma nota é uma ferramenta visual para ajudar a comunicação entre culturas e línguas de sinais pelo mundo.

13:00O segundo que eu gostaria de demonstrar é esse. Por favor me acompanhem novamente. E agora esse.Isso é “colonização” em ASL.

13:22Agora o terceiro. por favor me acompanhem de novo. De novo. Isso é “iluminação” em ASL. Vamos fazer os três juntos. “Se apaixonar,” “colonização,” e “iluminação.” Bom trabalho, pessoal.

13:52Percebam como os três são similares, eles acontecem na cabeça e no peito, mas eles tem significados bem diferentes.

13:58É incrível ver a ASL viva e prosperando, como a música está. Entretanto, hoje em dia, vivemos em um mundo centrado no áudio. E apenas porque ASL não tem som, automaticamente não tem moeda social.Precisamos pensar mais sobre o que define moeda social e permitir que a ASL desenvolva sua própria forma de moeda, sem som. Isso poderia ser um passo para uma sociedade mais inclusiva. E talvez as pessoas entendam que não precisam ser surdas pra aprender ASL, nem precisa ouvir para aprender música.

14:47ASL é um tesouro tão rico que eu gostaria que vocês tivessem a mesma experiência. E gostaria de lhes convidar a abrir seus ouvidos, abrir seus olhos, participar da nossa cultura e experimentar nossa linguagem visual. E nunca se sabe, talvez vocês se apaixonem por nós.

Intérprete: Piano, “p,” é o meu símbolo musical favorito. Significa tocar suavemente. Se estamos tocando um instrumento, e percebemos um “p” na partitura, precisamos tocar suavemente. Dois p’s, mais suave. Quatro p’s, extremamente suave. Esse é o meu desenho de uma árvore de p, que demonstra não importa quantos milhares de p’s possam existir, nunca se atingirá o silêncio completo. Essa é a minha atual definição de silêncio: um som quase imperceptível.

0:55Gostaria de falar um pouco sobre a história da Língua de Sinais Americana, ASL, e também um pouco da minha própria história. A língua de Sinais Francesa foi trazida para América no início dos anos 1800, e com o passar do tempo, se misturou com sinais locais, e evoluiu para o que hoje conhecemos com ASL.Então ela tem uma história de cerca de 200 anos.

1:22Eu nasci surda, e me ensinaram a crer que som não fazia parte da minha vida. E acreditei que era verdade. Agora eu sei que não era o caso. Som era sim parte da minha vida, está no meus pensamentos todo dia. Sendo uma pessoa surda vivendo em um mundo de som, era como se eu vivesse em um país estrangeiro, cegamente seguindo suas regras, costumes, comportamentos e normas sem nunca questionar.

2:12Então como eu compreendo som? Bem, eu observo como as pessoas se comportam e reagem ao som.Vocês são como meus alto-falantes e amplificadores. Eu aprendo e imito esse comportamento. Ao mesmo tempo, compreendi que eu também crio som e eu vi como as pessoas respondem a mim. Então eu aprendi, por exemplo: “Não bata a porta!” “Não faça muito barulho quando está comendo batatas fritas no pacote!”

2:43″Não arrote, e quando estiver comendo, não raspe seus talheres no prato.” Todas essas coisas eu chamo de “etiqueta de som”. Talvez eu pense mais sobre etiqueta de som do que uma pessoa que ouve pensa. Sou hipervigilante perto de sons. E estou sempre à espera, numa antecipação nervosa do que vai acontecer com o som.

3:12Por isso esse desenho. TBD, a ser decidido. TBC, a ser continuado. TBA, a ser anunciado. E percebam na pauta: não existem notas nas linhas. Isso porque as linhas já contêm som através de manchas e borrões sutis.

3:39Na cultura surda, movimento equivale a som. Esse é o sinal para “pauta” em ASL. Uma pauta típica contém cinco linhas. Ainda assim, sinalizar com o dedão para cima não parece natural. Por isso podem perceber nos meus desenhos, que uso quatro linhas no papel.

4:04Em 2008, tive a oportunidade de viajar para Berlim, Alemanha, para uma residência artística. Antes disso, eu trabalhava como pintora. Durante aquele verão, visitei diferentes museus e galerias, e enquanto ia de um lugar para outro, percebi que não havia artes visuais lá. Naquela época, som era tendência, e isso me impressionou… não havia artes visuais, tudo era auditivo.

4:36Agora o som entrou para o meu território na arte. Isso irá me distanciar mais da arte? Percebi que isso não precisa acontecer. Eu conheço som. O conheço tão bem que não precisa ser apenas uma experiência auditiva. Ele pode ser sentido pelo tato, pode ser percebido como visual, ou mesmo como uma ideia.

5:04Então decidi recuperar a posse do som e o usar na minha prática artística. E tudo que me ensinaram sobre som, decidi descartar e desaprender. Comecei a criar um novo trabalho. E quando o apresentei para a comunidade artística, fiquei deslumbrada com o apoio e atenção que recebi. Eu percebi: som é como dinheiro, poder, controle; valor social. No fundo, sempre acreditei que som fosse algo seu, algo de pessoas que ouvem. E som é tão poderoso que poderia desempoderar a mim e ao meu trabalho, ou me empoderar. Escolhi me empoderar.

6:07Existe uma cultura enorme em torno da língua falada. E porque não uso literalmente minha voz para me comunicar, aos olhos da sociedade é como se eu não tivesse voz. Então preciso trabalhar com pessoas que me tratem de igual para igual e se tornem minha voz. Dessa forma, consigo manter relevância na sociedade de hoje.

6:35Então na escola, no trabalho e em instituições, trabalho com vários intérpretes de ASL. E suas vozes se tornam minha voz e identidade. Eles me ajudam a ser ouvida. E suas vozes têm valor e aceitação.Ironicamente, ao me valer de suas vozes consigo manter uma forma temporária de aceitação, quase como pegar um empréstimo com elevada taxa de juros. Se eu não continuasse com essa prática, sinto que poderia sumir no esquecimento e não ter nenhuma forma de valor social.

7:28Então, tendo o som como meu novo meio de arte, mergulhei no mundo da música. Fiquei surpresa ao descobrir as semelhanças entre música e ASL. Por exemplo: uma nota musical não pode ser totalmente captada e expressa no papel. E o mesmo se aplica a um conceito em ASL. Ambos são altamente espaciais e modulados, o que significa que pequenas mudanças podem alterar todo o significado dos sinais e sons.

8:10Gostaria de compartilhar com vocês uma metáfora de piano, para que tenham uma melhor compreensãode como a ASL funciona. Então imaginem um piano. ASL é dividida em vários parâmetros gramaticais diferentes. Se atribuirmos um parâmetro diferente a cada dedo, como se faz no piano, como expressões faciais, movimentos do corpo, velocidade, formato da mão e assim por diante, como se faz no piano. O inglês é um idioma linear, como uma tecla pressionada por vez. Porém, ASL é mais como um acorde:todos os dez dedos devem pressionar simultaneamente para expressar um conceito ou ideia claros na ASL. Se uma das teclas mudasse o acorde, criaria um significado completamente diferente. O mesmo se aplica à música em relação a tom, timbre e volume. Na ASL, valendo-nos de vários parâmetros gramaticais, podem ser expressas diversas ideias.

9:16 Por exemplo, o sinal OLHAR-PARA. Esse é o sinal OLHAR-PARA. Estou olhando para vocês. Encarando vocês.

 

 

9:51 Então pensei: “E se eu olhasse para ASL por uma lente musical?” Se eu criasse um sinal e o repetisse várias vezes, poderia se tornar algo como música visual. Por exemplo, esse é o sinal para “dia,” como o sol levanta e se põe. Esse é “o dia todo.” Se eu fosse repetir e desacelerar, visualmente parece música.Dia… todo. Acredito que o mesmo se aplica a “noite toda.” “Noite toda.” Isso é NOITE-TODA, representada nesse desenho. Isso me fez pensar em três tipos de noite: “noite de ontem,” “durante a noite,” (Cantando) “a noite toda.”

11:06 Creio que o terceiro tem mais musicalidade que os outros dois.

11:12 Isso representa como o tempo é expressado na ASL e como a distância do seu corpo pode expressar mudanças no tempo. Por exemplo, 1H é uma mão, 2H são duas mãos, o tempo presente acontece mais próximo e em frente ao corpo, o futuro é na frente do corpo, e o passado às suas costas O primeiro exemplo é “muito tempo atrás.” Então “passado,” “costumava” e o último, que é meu favorito, com uma noção bem romântica e dramática, “era uma vez.”

11:56 “Tempo comum” é um termo musical com assinatura de tempo específica de quatro batidas por compasso. Mas quando eu vejo as palavras “tempo comum,” o que vem à minha cabeça automaticamente é “ao mesmo tempo.” Então percebam RH: mão direita, LH: mão esquerda. Temos a pauta na cabeça e no peito.

 

12:24 Agora vou demonstrar um formato de mão chamado “Flash Claw” Vocês podem me acompanhar, por favor? Todo mundo, mãos para cima. Agora vamos fazer na cabeça e no peito, como “tempo comum” ou “ao mesmo tempo”. Sim, conseguiram. Isso significa “se apaixonar” na Língua de Sinais Internacional

12:52 Língua de Sinais Internacional, como uma nota é uma ferramenta visual para ajudar a comunicação entre culturas e línguas de sinais pelo mundo.

13:00O segundo que eu gostaria de demonstrar é esse. Por favor me acompanhem novamente. E agora esse.Isso é “colonização” em ASL

13:22 Agora o terceiro. por favor me acompanhem de novo. De novo. Isso é “iluminação” em ASL. Vamos fazer os três juntos. “Se apaixonar,” “colonização,” e “iluminação.” Bom trabalho, pessoal.

13:52 Percebam como os três são similares, eles acontecem na cabeça e no peito, mas eles tem significados bem diferentes.

13:58 É incrível ver a ASL viva e prosperando, como a música está. Entretanto, hoje em dia, vivemos em um mundo centrado no áudio. E apenas porque ASL não tem som, automaticamente não tem moeda social.Precisamos pensar mais sobre o que define moeda social e permitir que a ASL desenvolva sua própria forma de moeda, sem som. Isso poderia ser um passo para uma sociedade mais inclusiva. E talvez as pessoas entendam que não precisam ser surdas pra aprender ASL, nem precisa ouvir para aprender música.

14:47 ASL é um tesouro tão rico que eu gostaria que vocês tivessem a mesma experiência. E gostaria de lhes convidar a abrir seus ouvidos, abrir seus olhos, participar da nossa cultura e experimentar nossa linguagem visual. E nunca se sabe, talvez vocês se apaixonem por nós.

 

 

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