Paulo Leminsky

meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam
outra coisa


presença
olhar
lembrançacalor


meus amigos
quando me dão
deixam na minha
a sua mão


Paulo Leminsky (1981)

Estado Terminal





Estado Terminal




no corpo as marcas de quem já viveu o bastante,
sentiu o bastante, sofreu o bastante e amou o bastante.
pele flácida, seios murchos, olheiras profundas,
rugas e manchas tatuam o rosto envelhecido,
restos da vaidade  de um tempo que não mais existe.

alma inquieta, sobrevivente de naufrágios,
de perdas irreparáveis, do aniquilamento,
das desgraças, desafetos e despeitos.
alma experiente, matuta e sábia,
que já viu e experimentou de quase  tudo nesta terra.

o corpo já não responde mais,
aos  analgésicos, antibióticos e opináceos,
está silente, acomodado e inerte,
músculos e ossos definhando a cada minuto,
acabam-se sem acabar, sem findar.

alma valente agarra-se ao corpo,
violenta vontade de viver, a impede de ir,
alma audaciosa, quer ficar um pouco mais,
ver um pouco mais os olhos que ama,
ouvir um pouco mais as vozes que ama.


No céu a porta já está aberta,
os anjos dizem:
– Vem, vem, vem!
o corpo já morto pede pra ir,
mas a alma, tão lúcida, viva e corajosa insiste em ficar.

N. N.A.

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