O barco – Pablo Neruda

O Barco

Mas se já pagamos nossas passagens neste mundo
por que, por que não nos deixam sentar e comer?
Queremos olhar as nuvens,
queremos tomar o sol e cheirar o sal,
francamente não se trata de incomodar ninguém,
é tão simples: somos passageiros.

Vamos todos passando e o tempo conosco:
passa o mar, a rosa se despede,
passa a terra pela sombra e pela luz,
e vocês e nós passamos, passageiros.

Então, o que se passa?
Por que vocês andam tão furiosos?
Procuram quem com o revólver?

Nós não sabíamos
que tinham ocupado tudo,
os copos, os assentos,
as camas, os espelhos,
o mar, o vinho, o céu.

Agora o que acontece
é que não temos mesa.
Não pode ser, pensamos.

Não  podem nos convencer.
Estava escuro quando chegamos de barco.
Estávamos nus.
Todos nós chegávamos do mesmo lugar.
Todos nós vínhamos de mulher e de homem.
Todos nós tivemos fome e depois dentes.
A todos cresceram as mãos e os olhos
para trabalhar e desejar o que existe.

E agora inventam que não podemos,
que não tem lugar no barco,
não querem nos saudar,
não querem nos julgar.

Por que tantas vantagens para vocês?
Quem lhes deu a colher quando não haviam nascido?

Aqui não estão contentes,
assim as coisas não andam.

Não gosto de, na viagem,
encontrar, nos lugares, a tristeza,
os olhos sem amor ou a boca com fome.

Não há roupa para este outono crescente
e menos, menos, menos para próximo inverno.
E sem sapatos como vamos dar a volta
ao mundo, a tanta pedra nos caminhos?
Sem mesa, onde vamos comer,
onde nos sentaremos se não temos cadeira?
Se é uma brincadeira triste, decidam-se, senhores,
a terminá-la logo,
a falar sério agora.

Depois o mar é duro.

E chove sangue.

Pablo Neruda

NERUDA, Pablo. Navegações e regressos. São Paulo: Media Fashion, 2012.

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