Poema: Sem rumo



Sem rumo

Quem se importa, se tenho uma ideia
e essa ideia me corrói por dentro?
Quem quer ver meu lado avesso?
Quem deseja ouvir perguntas sem respostas?
Quem suporta as imperfeições alheias?
Quem se importa com o grito na noite escura?
Dizem num sussurro:
– Não pense, nós já pensamos por você!
– Não crie, nós já criamos por você!
– Não questione, serás tragado pela incerteza!
– Não veja, não ouça  e não fale !
E em seguida esbravejam:
– Copie o modelo!
– Reproduza o padrão!
– Aqui só formamos homens e mulheres em série!
Penso então na multiforme graça divina,
na diversidade das cores e formas,
nos sons e suas combinações infinitas,
penso no Deus que chama cada estrela pelo nome,
penso na complexidade do ser humano e pergunto:
– Deus, por que nos fizestes seres pensantes e criativos,
quando a maioria quer nos rotular e dizer quem somos ou devemos ser ?

n.n.a

Outubro Rosa – Mulher é desdobrável


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade da alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Adélia Prado

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