A lição dos poetas
É preciso aprender. Todos os homens têm em comum essa capacidade de experimentar o prazer e a pena.
Racine não tem vergonha de ser o que é: um miserável. Ele aprende Eurípedes e Virgílio decor, como um papagaio. Ele procura traduzi-los, decompõe suas expressões, recompõe de outra maneira. Ele sabe que ser poeta é traduzir duas vezes: traduzir em versos franceses a dor de uma mãe, a cólera de uma rainha ou a fúria de uma amante é também traduzir a tradução que Eurípedes ou Virgílio fizeram. […] Esse grande poeta supõe, exatamente, o contrário: ele só trabalha, só se esforça tanto, apaga cada palavra, modifica cada expressão porque espera que seus leitores compreenderão tudo, precisamente como ele próprio compreende.
[…] o poema é a ausência de outro poema.
Todo o esforço, todo o trabalho do poeta é suscitar essa aura em torno de cada palavra da expressão. É por isso que ele analise, disseca, traduz as expressões dos outros, que ele apaga e corrige sem cessar as suas. Ele se esforça para tudo dizer, sabendo que não pode dizer tudo, mas que é essa tensão incondicional do tradutor que abre a possibilidade de outra tensão, de outra vontade: a língua não permite dizer tudo, e ” é preciso que eu recorra e eu próprio gênio, ao gênio de todos os homens, para adivinhar o que Racine quis dizer, o que ele diria na qualidade de homem, o que ele diz quando não fala, o que não pode dizer enquanto não é somente poeta”.
Modéstia verdadeira do “gênio”, isto é,do artista emancipado: ele emprega toda sua potência, toda sua arte em nos mostrar seu poema como ausência de um outro, cujo conhecimento ele nos concede o crédito de possuir tão bem quanto ele próprio.
RANCIÈRE, J. O mestre Ignorante. São Paulo: Idêntica, 2013.
Obra de Racine: Fedra http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/fedra.html

