Ostras – Seamus Heaney

Nossas conchas craqueavam nos pratos.
Minha língua era um estuário se enchendo.
Meu palato curvado de estrelas:
Enquanto eu degustava as Plêiades salgadas
Órion mergulhava o pé na água. 

Vivas e violadas,
Jaziam nos leitos de gelo:
Bivalves: o bulbo partido
E o suspiro galanteador do oceano.
Milhões delas rompidas, arrancadas, dispersadas. 

Fôramos de carro àquela costa
Através de flores e calcários
E lá estávamos, brindando à amizade,
Depondo uma lembrança perfeita
No frescor do colmo e da louça de barro.

Nos Alpes, metidos em neve e feno,
Os romanos carrearam ostras rumo ao sul até Roma:
Vi alcofas úmidas vomitarem
A fronde-lambida, salmora-picante
Glutonia de privilégio

E me irritava que minha fé não pudesse repousar
Na clara luz, qual poesia ou liberdade
Inclinando-se do mar. Comi o dia.
Deliberadamente, para que seu travo
Me avivasse todo em verbo, puro verbo. 

HEANEY, SEAMUS. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Um site WordPress.com.

Acima ↑