Curitiba, 25 de fevereiro de 2016.
Ode à Tese
Ah, ela é feminina,
aos menos para os latinos!
Sofisticada e cheia de “marra”,
tão caprichosa, cheia de detalhes,
abnegada, tem os pés no chão.
Não se pode vê-la de uma vez,
será necessário tempo,
um olhar atento e uma certa dose de coragem.
Desde a capa,
já se vê sua ousadia,
seus mentores e acompanhantes,
uma universidade, um(a) orientador(a)
doutores que formam uma banca de avaliação,
autores, uma perspectiva teórica,
uma metodologia de pesquisa,
a história tão cheia de reveses e avanços.
Adentrando por suas páginas,
folha a folha,
ela desnuda suas curvas e formas,
começa de mansinho,
prelúdio de uma história de amor,
com agradecimentos, epígrafe,
listas de abreviações, tabelas,
o sumário, com seus títulos e subtítulos…
Mas chega, enfim, o corpo do texto,
carne e sangue,
respiração, músculos em movimento,
enfim, uma mulher por inteiro.
Os capítulos vão se seguindo,
nas páginas, a vida de mulheres e homens,
pessoas com deficiência,
vozes silenciadas,
os gritos dos injustiçados e suas dores,
a organização do povo,
suas lutas e a conquistas por direitos.
Tecelã acadêmica,
maneja com destreza os fios,
às vezes, é preciso desfazer alguns trechos,
refazer, reorganizar,
apagar e reescrever.
E o tempo vai apurando o texto,
o tecido vai ganhando formas e cores,
expressão da complexidade dialética da vida.
Verdade seja dita,
nem tudo são flores e a tese
vai caminhando por terrenos pedregosos,
experimenta sismos,
entra na caverna de Adulão,
exausta, busca a sabedoria,
o conselho dos sábios,
descansa, suaviza,
alimenta-se mais uma vez
e bebe de fontes subterrâneas.
Levanta a cabeça,
“sacode a poeira, dá volta por cima”,
pressente que a conclusão se aproxima,
e esguia, veste-se de violeta e púrpura,
leva uma coruja como mascote,
sente-se um grão de areia
diante do oceano.
Seguir adiante é preciso.
Chega-se à conclusão, à bibliografia,
os anexos e apêndices,
e a folha em branco no final,
que anuncia uma nova jornada.
O fim é também um começo.
Noemi Nascimento Ansay

