Quando o anjo passar…

German Lorca 1962
Quando o anjo passar…

Erguerei meus braços,
ficarei na ponta dos pés,
pedirei num sussurro:
– Leva-me contigo! Leva-me contigo!
Então subirei…
de alma lavada, pura, alva,
serei alçada as alturas,
para longe, bem longe.
Deixarei as perguntas para trás,
não desejarei mais nada, não viverei mais nesta jaula,
não sofrerei mais a dor do desamor,
que a todo instante parece cravejar a alma como uma faca afiada.
Contarei com a misericórdia e o amor
d’Aquele que não veio condenar,
que não veio atirar pedras,
mas amou de forma perfeita a todos.
n.n.a

Visita da Chuva – Cecília Meireles

Foto: German Lorca

Visita da Chuva

Estas altas árvores
são umas harpas verdes
com cordas de chuva
que tange o vento.

Vêm os sons mais claros
da amendoeira amarela,
pontuados na palma
das fortes folhas virentes.

Os sons mais frágeis nascem
na fronde da acácia leve,
com frouxos cachos de flores
e folhinhas paralelas.

Os sons mais graves escorrem
das negras mangueiras antigas,
de grossos, torcidos galhos,
franjados de parasitas.

Os sons mais longínquos e vagos
vêm dos finos ciprestes:
chegam-se e apagam-se, nebulosos,
desenham-se e desaparecem…




Cecília Meireles
Livro: Mar Absoluto e outros poemas: Retratos Naturais. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

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