
Crédito: Foto: Rogério Capela
Uma mulher pobre aprende a escrever
Ela se agacha, descalça,
pés abertos, não é
graciosa; a saia metida entre os tornozelos.
Seu rosto é enrugado e rachado.
Parece velha,
velha demais.
Deve ter trinta anos.
Suas mãos também são enrugadas e rachadas
e desajeitadas. Seu cabelo está escondido.
Ela escreve com um graveto, laboriosamente,
na terra úmida e cinzenta,
franzindo a testa de ansiedade.
Letras imensas.
Pronto. Está terminado.
Sua primeira palavra até aqui.
Nunca pensou que pudesse fazer isso.
Não ela.
Isso era para os outros.
Levanta os olhos, sorri
como se estivesse pedindo desculpas,
mas não está. Não desta vez. Fez tudo certo.
O que diz a lama?
Seu nome. Não podemos lê-lo.
Mas podemos adivinhar. Olhe para o seu rosto:
Flor Alegre? Radiante? Sol sobre a Água?
ATWOOD, M. A porta. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.

