Dias de Sol

Em dias de sol, 
derreto, 
espreguiço,  
escorrego, 
ilumino,
flutuo,
em teus campos 
verdes e iluminados.
A luz 
banha meu corpo, 
que sorri,
chora,
canta,
treme, 
suspira,
ama.
n.n.a

Vladimir Horowitz 1962 Chopin Piano Sonata No. 2 in B-flat minor

Há sentimentos tão profundos, becos, vielas, abismos, vales e montanhas que só a música erudita consegue expressar.

Recomendações para um dia de frio

Duas xícaras bem quentes de amizade,
meias de generosidade,
casacos de fraternidade,
doses exageradas de AMOR,
que não custa nada e nunca acaba.

n.n.a

O bêbado perfumado

O bêbado perfumado


É inverno em Curitiba,
as mãos e pés parecem congelar,
moradores de rua,
se viram como podem,
com cobertores e caixas de papelão.
João, não tem onde dormir,
desgarrado e maltrapilho,
perambula pelas ruas da cidade,
toma banho em um albergue
e uma sopa nos fundos da igreja.
João, sente frio na alma,
ferido, calejado,
não pede nada a ninguém,
vive em sua solidão
sem nenhuma pretensão de viver dias melhores.
Fugitivo e trêmulo entra no ônibus,
todos os olhares se voltam pra ele,
está em plena crise de abstinência,
tira um vidro de perfume da bolsa,
toma vários goles da bebida.

Os passageiros são tomados de assalto
com a fragrância de notas florais e etílicas,
o odor a princípio agradável 
torna-se aos poucos
repugnante.

Oh, José, e agora?
Será que estás embalsamando
teu corpo para morte?
De quem é culpa?
Sua? Minha?
NOSSA.

(Noemi N.Ansay)

Luis Sepúlveda

“E o meu irmão
sabe
muitas coisas.
Sabe, por exemplo,
que um grama de pólen
é como um grama de si mesmo,
docemente predestinado ao lodo germinal,
ao mistério daquilo que se erguerá vivo de ramos,
de frutos e de filhos, com a bela certeza das transformações,
do começo inevitável e do necessário final, porque o que é imutável
encerra o perigo do eterno, e só os deuses têm tempo para a eternidade.”

Luis Sepúlveda

Para dias frios em Curitiba

manhã fria

meia calça
meia de algodão
meia de lã
jornal no sapato
bota
ceroula
calça
camiseta
camisa
blusa de lã
cachecol
luvas
touca
sobretudo
guarda chuva na bolsa
café com leite
trânsito caótico
ônibus lotado
a lida de todo dia
manhã curitibana
abaixo de zero.

Noemi N. Ansay

Sabedoria Poética para o FRIO

Quando Está Frio no Tempo do Frio

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Fernando Pessoa

Um site WordPress.com.

Acima ↑