O bêbado perfumado
É inverno em Curitiba,
as mãos e pés parecem congelar,
moradores de rua,
se viram como podem,
com cobertores e caixas de papelão.
João, não tem onde dormir,
desgarrado e maltrapilho,
perambula pelas ruas da cidade,
toma banho em um albergue
e uma sopa nos fundos da igreja.
João, sente frio na alma,
ferido, calejado,
não pede nada a ninguém,
vive em sua solidão
sem nenhuma pretensão de viver dias melhores.
Fugitivo e trêmulo entra no ônibus,
todos os olhares se voltam pra ele,
está em plena crise de abstinência,
tira um vidro de perfume da bolsa,
toma vários goles da bebida.
Os passageiros são tomados de assalto
com a fragrância de notas florais e etílicas,
o odor a princípio agradável
torna-se aos poucos
repugnante.
Oh, José, e agora?
Será que estás embalsamando
teu corpo para morte?
De quem é culpa?
Sua? Minha?
NOSSA.
(Noemi N.Ansay)
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