A criança ferida – Margaret Atwood

A criança ferida

A criança ferida vai mordê-lo.
A criança ferida vai se tornar
uma criatura assustadora
e mordê-lo mesmo onde você está.

A criança ferida verá a pele se formar
sobre o ferimento que recebeu você
– recebeu não, por que o ferimento
não é um presente, um presente é aceito
livremente, e a criança não teve escolha.

Ela vai formar uma pele sobre o ferimento,
o ferimento acumulado, o ferimento que atravessa gerações
e que você extraiu com forças de si mesmo feito uma bala
e implantou na carne da criança –
uma pele um couro um pelo
uma crosta escaldada,
e dentes afiados de peixe
como os de um bebê deformado –
e vai mordê-lo

e você vai dizer que não vale
como é o seu hábito
e haverá uma luta
porque você vai tirar a luta da caixa
com o rótulo Lutas que guarda com tanto cuidado
para as emergências, e esta é uma delas,
e a criança ferida perderá a luta
e irá cambaleando
para os subúrbios, e causará
pânico nas drogarias e estrago
nos churrascos
e eles dirão Ajudem ajudem um monstro
e saíra no noticiário

e ela será caçada
com cães, e deixará um rastro
de cabelo, pelo, escamas e dentes de leite, e lágrimas
de onde foi rasgada
com vidro quebrado e coisas do tipo

e vai se esconder em canos de esgoto
em depósitos de ferramentas, debaixo de arbustos,
lambendo sua ferida, sua raiva,
a raiva que recebeu de você
e vai se arrastar até o poço

o lago o riacho o reservatório
porque tem sede
porque é monstruosa
com sua sede feroz
que parece toda coberta de espinhas

e os cães e caçadores vão encontrá-la
e ela ficará encurralada
e uivará sobre injustiças
e vão rasgar seu corpo e abri-lo
e vão comer seu coração
e todos darão vivas,
Graças a deus acabou !

E seu sangue escorrerá para dentro d’água
e você vai bebê-lo todos os dias.

ATWOOD, Margaret. A porta.  Rio de Janeiro: Ricco, 2013. p. 77,78

http://zip.net/bgkymr

Vizcacha do Atacama

Perguntou o viajante desavisado:
– Por onde andavas pequena Vizcacha?
– A percorrer o deserto do Atacama.
– É possível viver aqui? Tudo parece tão seco e inóspito.
A Vizcacha toda faceira responde:
– Meu caro viajante, não sabes que a vida é teimosa, ela resiste, transborda, viceja por todos os cantos, buracos e brechas. A vida insiste em viver ! 

Noemi N. Ansay

Foto belíssima do amigo chileno Leo Albornoz no Deserto de Atacama

Aventuras na Ilha do Mel

http://www.editoraappris.com.br/…/Aventuras-na-Ilha-do-Mel#

AVENTURAS NA ILHA DO MEL 

Esta é a história de quatro abelhinhas que desbravam as belezas da Ilha do Mel, no estado do Paraná. A ilha exuberante é o cenário perfeito para o colorido poético dessa linda aventura. Silvia Andreis-Witkoski traduz, com suas ilustrações e texto, o esplendor do céu e da terra, a vegetação, as trilhas de areia, as praias, o Farol das Conchas, a tranquilidade e as origens peculiares do nome dessa ilha. O livro expressa o encantamento das abelhinhas no contato com a natureza e o valor do companheirismo e da amizade. Aventuras na Ilha do Mel é uma delícia: tem gosto de Mel, nutre a mente e o coração.
Noemi Nascimento Ansay

Minha amiga Silvia Andreis registrou uma viagem que fizemos a Ilha do Mel.
Belíssimo texto e ilustrações.

Feliz Aniversário !!!!!!!


Menino Sol

O vejo ali,
menino de cinco anos,
iluminado, sol, solis, solaris,
levado, mimado, cheio de vida,
criativo, musical desde que nasceu,
com sua bicicleta pedala pelos Campos do mundo.
Aos quinze anos, moço bonito,
gentil com todos,
generoso, sorridente,
sol do meio dia,
sua alma alargada,
não cabe dentro do peito.
Aos quarenta,
homem maduro,
cercado de livros e dicionários,
trabalhador, responsável,
ciente das dores e lutas da vida,
preserva no peito o coração de menino,
ousa ter fé, esperança e amor.

n.n.a

Novidade: Revista Brasileira de Musicoterapia nº 18

Minha mãe definha

Minha mãe definha, definha
e continua viva.
Seu coração forte a impulsiona
com a imprudência de um motor
uma noite após a outra.
Todos dizem: Isto não pode continuar
mas continua.
É como observar alguém se afogando.

Se ela fosse um barco, diríamos
que a lua brilha através das suas costelas
e ninguém maneja o leme,
mas não se pode dizer que esteja à deriva;
há alguém ali.
Seus olhos cegos iluminam-lhe o caminho.

Lá fora, em seu jardim abandonado,
o mato cresce de modo quase audível:
erva-moura, vara-de-ouro, cardo.
Todas as vezes que os arranco
uma nova onda começa a brotar,
subindo rumo a sua janela.
Demolem a parede de tijolos lentamente,

ocultam bordas e caminho.
borrando seus contornos.
Sua antiga ordem de palavras
desaba sobre si mesma.

Hoje, após semanas de silêncio,
ela compôs uma frase:
Acho que não.

Seguro sua mão, sussurro,
Olá, olá.
Se eu dissesse Adeus em vez disso,
se eu dissesse: Entregue-se,
o que ela faria?

Mas não posso dizê-lo.
Prometi que iria até o fim,,
o que quer que isso signifique.
O que posso dizer a ela?
Estou aqui,
Estou aqui.

ATWOOD, M. A porta. Rio de Janeiro: Rocco, 2013

Os poetas aguentam firme – Margaret Atwood

Os poetas aguentam firme

Os poetas aguentam firme.
É difícil livrar-se deles,
embora deus saiba que já se tentou.
Passamos por eles na estrada
de pé com suas tigelas mendicantes,
um hábito antigo.
Nada dentro delas agora
além de moscas secas e moedas falsas.
Eles olham reto em frente.
Estão mortos ou o quê?
Têm, contudo, a expressão irritante
dos que sabem mais do que nós.

Mais do quê?
O que é isso que alegam saber?
Desembuchem, falamos entre os dentes.
Digam de maneira direta!
Se você tenta obter uma resposta simples,
nesse momento eles se fingem loucos,
ou então bêbados, ou então pobres.
Vestiram suas fantasias
faz algum tempo,
esses suéteres pretos, esses andrajos;
agora não conseguem mais tirar.
E estão tendo problemas com os dentes.
Esse é um dos seus fardos.
Uma ida ao dentista não lhes faria mal.

Estão tendo problemas com as asas, também.
Não temos visto muita coisa de sua parte
no setor de voo, estes dias.
Não os vemos mais pairando nos ares, radiantes,
acabaram-se as travessuras aéreas.
Para o que diabos são pagos?
( Suponha que sejam pagos.)
Não conseguem sair do chão,
ele e suas penas enlameadas.
Se voam, é para baixo,
para dentro da terra úmida e cinzenta.

Vão embora, dizemos –
e levem sua aborrecida tristeza.
Não os queremos aqui.
Esqueceram-se de como bajular.
Já não são sábios.
Perderam seu esplendor.

Mas os poetas aguentam firme.
São tenazes, acima de tudo.
Não sabem cantar, não sabem voar.
Só dão pulos e grasnidos
e se debatem contra o ar
como se enjaulados,
e contam ocasionais piadas cansadas.
Quando lhes fazem perguntas a respeito, dizem
que falam o que devem.
Cristo, como são pretensiosos.

Há algo que sabem, porém.
Há algo que sabem, sim.
Algo que estão sussurrando,
algo que não podemos ouvir muito bem.
É sobre sexo?
É sobre poeira?
É sobre medo?

ATWOOD, M. A porta. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.

Uma mulher pobre aprende a escrever – Margaret Atwood


Crédito: Foto: Rogério Capela

Uma mulher pobre aprende a escrever

Ela se agacha, descalça,
pés abertos, não é
graciosa; a saia metida entre os tornozelos.

Seu rosto é enrugado e rachado.
Parece velha,
velha demais.

Deve ter trinta anos.
Suas mãos também são enrugadas e rachadas
e desajeitadas. Seu cabelo está escondido.

Ela escreve com um graveto, laboriosamente,
na terra úmida e cinzenta,
franzindo a testa de ansiedade.

Letras imensas.
Pronto. Está terminado.
Sua primeira palavra até aqui.

Nunca pensou que pudesse fazer isso.
Não ela.
Isso era para os outros.

Levanta os olhos, sorri
como se estivesse pedindo desculpas,
mas não está. Não desta vez. Fez tudo certo.

O que diz a lama?
Seu nome. Não podemos lê-lo.
Mas podemos adivinhar. Olhe para o seu rosto:

Flor Alegre? Radiante? Sol sobre a Água?

ATWOOD, M. A porta. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.

Salmo 121 – Elevo os meus olhos para os montes ….

1 Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro ?

2 O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra.

3 Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não tosquenejará.

4 Eis que não tosquenejará nem dormirá o guarda de Israel.

5 O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita.

6 O sol não te molestará de dia nem a lua de noite.

7 O Senhor te guardará de todo o mal; guardará a tua alma.

8 O Senhor guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.

Poema: entrega e renúncia

entrega e renúncia
a entrega, exige renúncia,
a renúncia, exige entrega, 
quanto mais me entrego, 
mais renuncio,
e quanto mais renuncio
mais me entrego.
difícil é o caminho, 
estreito, apertado, 
dolorido tantas vezes.
entregar e renunciar, 
exercício de um amor exigente.
n.n.a

LEI Nº 13.146, DE 6 DE JULHO DE 2015.Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13146.htm

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