Outrora cobiçava o mundo,
Queria roubar coisas,
querida roubar muitas coisas.
Nos anos recentes, pouquíssimas.
Mas hoje senti o impulso do furto
se esgueirando de volta aos meus dedos:
Queria roubar a taça do beija-flor.
Se você tivesse a mão grande
e tocasse o polegar no indicador,
essa seria a circunferência.
Se tivesse o olho pequeno,
o beija-flor seria menor.
A taça é de um vermelho escuro,
cor de sangue seco,
e tem uma pena pintada, ou talvez um vento,
ou talvez uma palavra.
O beija-flor é de um azul vivo.
Empoleira-se na borda
e mergulha o bico na taça
bebendo o que costumava haver ali.
Quem a fez?
Para quem foi feita?
Quem verteu o que dentro dela?
Com que prazer?
Se eu apenas pudesse roubar essa taça-
quebrar o estojo de vidro, fugir com ela!
Essa taça cheia de felicidade
que parece o ar
ou fôlego exaurido, ou sombras
num dia sem sol,
que não parece coisa alguma,
que parece o tempo,
que parece o que você quiser.
ATWOOD, M. A porta. Rio de Janeiro: Ricco, 2013.


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