Humanos

Equilíbrio


Da cabeça aos pés humano.
Humano da cabeça aos pés.
Orgânico, organizado, organismo.
Limitado por um tempo, um espaço e um corpo.
Que sente demais ou sente de menos.
Que tem demais ou tem de menos.
Que fala demais ou fala de menos.
Que come demais ou come de menos.
Que dorme demais ou dorme de menos.
Que trabalha demais ou trabalha de menos.
Que estuda demais ou estuda de menos.
Que sonha demais ou sonha de menos.
Equilíbrio? Simetria?
Haverá um humano equilibrado?
Soma, psique e pneuma,
Corpo, alma e espírito em perfeita harmonia? Todos perfeitamente e imperfeitamente HUMANOS.

Noemi Nascimento Ansay

El labirinto de la soledad

Yuri viu que a Terra é azul e disse a Terra é azul.

Depois disso, ao ver que a folha era verde disse

a folha é verde, via que a água era transparente.

e dizia a água é transparente via a chuva que caía

e dizia a chuva está caindo via que a noite surgia

e dizia lá bem a noite, por isso uns amigos diziam

que Yuri era só obviedades enquanto outros

atestavam que tolo se limitava a tautologias

e inimigos juravam que Yuri era um idiota

que comovia mais que o esperado; chorava

nos museus, teatros, diante da televisão, alguém

varrendo a manhã, cafés vazios no fim da noite.

sacos de carvão, a neve caindo, dizia é branca

a neve e chorava; se estava triste, se alegre,

essa mágoa; mas ria se via um besouro dizia

um besouro e ria; vizinhos e cunhados decretaram:

o homem estava doido; mas sua mulher assegurava

que ele apenas voltara sentimental. O astronauta.

lacrimoso sentia o peito tangido de amor total

ao ver as filhas brincando de passar anel

e de melancolia ao deparar com antigas fotos

de Klushino, não aquela dos livros, estufada

de pendões e medalhas, mas sua aldeia menina,

dos carpinteiros, das luas e lobisomem,

seu tio Pavel, de sua mãe, do trem,

de seus primos, coisas assim, luvas velhas,

furadas, que servem somente para fazer chorar.

Era constrangedor o modo como os olhos

de Yuri parecia transpassar as paredes

nas reuniões de trabalho, nas solenidades,

nas discussões das metas para o próximo ano

e no instante seguinte podiam se encher de água

e os dentes ficavam quase azuis de um sorriso

inexplicável: um general, ironicamente

ou não, afirmara em relatório oficial que Yuri

Gagarin vinha sofrendo de ternura

devastadora; sabe-se lá o que isso significava,

mas parecia que era exatamente isso, porque

o herói não voltou místico ou religioso, ficou

doce, e podia dizer eu amo você com facilidade

de um pequeno-burguês, conforme sentença

do Partido a portas fechadas. Certo dia contam,

caiu aos pés de Octavio Paz; descuidado tropeçara

de paixão pelas telas cubistas degeneradas de Picasso.

Médico recomendaram: vodca, férias, Marx,

barbitúricos: o pobre-diabo fez de tudo

para ser igual a todo mundo, mas,

quando parecia apenas banal. Logo dizia coisas

como a leveza é leve. Desde o início,

quiseram calá-lo; uma pena; Yuri voltou vivo

e não nos contou como é a morte.

FERRAZ, Eucanaã. Sentimental. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Imagem produzida por IA. (Mootion)

Lançamento da Telearanha do Livro “Margens e Frestas”

Convido minhas queridas amigas e amigos, para o lançamento do meu quarto livro “Margens e Frestas”. O evento será no sábado dia 07/12/2024 das 15h às 17:30 na Livraria Telearanha na rua Ébano Pereira, 269, Curitiba, PR.

O livro conta com belíssimas ilustrações da artista Leila Alberti e com um QR Code, que direciona para vídeos em LIBRAS, com a participação das queridas amigas e amigos, intérpretes surdas e surdos, Rita Maestri, Silvia Andreis Witkoski, Bruno Ernsen, Giovana Oliveira, Renata Reis e André Oshiro, editados pela maravilhosa @Camille Casarini Reis. Também participam do prefácio e apresentação do livro os queridos amigos: Profa. Dra. Salete Machado e o Prof. Dr. Jorge Alarcón Leiva (Chile) que muito me honram com suas participações.

“Margens e Frestas é uma envolvente coletânea de poesias que transporta o leitor para as paisagens e experiências profundas da vida cotidiana e da natureza brasileira. Noemi Ansay tece narrativas que capturam a essência das comunidades rurais e costeiras do Brasil, revelando o cotidiano de famílias, caçadores e pescadores, enquanto celebra as ricas tradições culturais caiçaras. Além de explorar as raízes e tradições brasileiras, somos guiados para outras paisagens como o Chile, Canadá e Japão, criando um mosaico cultural que aborda desde a beleza do teatro Noh, até os desafios contemporâneos e as crises sociais. Com uma linguagem rica em metáforas e imagens sensoriais, Margens e Frestas é um tributo à conexão entre o ser humano e a natureza, e uma profunda reflexão sobre as histórias que moldam nossas vidas.”

Se puderem me ajudar na divulgação, agradeço de 🩷

Novo Livro “Margens e Frestas”

Para adquirir meu novo livro acesse o site da Editora Margens e Frestas | Editora Inverso.

https://www.unespar.edu.br/noticias/diretora-do-campus-de-curitiba-ii-fap-lanca-livro-de-poesias

A diretora do campus de Curitiba II/FAP, da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), Noemi Ansay, lança no dia 19 de outubro, das 10 às 13h30, na Casa In Verso!, mais um livro, dessa vez, reunindo uma coletânea dos poemas e versos escritos por ela entre 2014 e 2024.

Segundo Noemi, o livro “Margens e Frestas”, da Editora InVerso, é um convite aos leitores a caminharem pelas margens do rio Tabaçaba, no Paraná, e a olharem pelas frestas do mundo, apreciando suas “belezas, sincronicidades, disparates e contradições.”

Para a autora, a obra é “uma envolvente coletânea de poesias que transporta o leitor para as paisagens e experiências profundas da vida cotidiana e da natureza brasileira.” Noemi tece narrativas que capturam a essência das comunidades rurais e costeiras do Brasil, revelando o cotidiano de famílias, caçadores e pescadores, enquanto celebra as ricas tradições culturais caiçaras.

O livro, além de explorar as raízes e tradições brasileiras, guia o leitor para outras paisagens como o Chile, Canadá e Japão, criando um mosaico cultural que aborda desde a beleza do teatro Noh, até os desafios contemporâneos e as crises sociais. “Margens e Frestas” apresenta uma linguagem “rica em metáforas e imagens sensoriais, tornando-se um tributo à conexão entre o ser humano e a natureza, e uma profunda reflexão sobre as histórias que moldam nossas vidas”, reflete a autora.

Noemi revela ainda que: “Escrever poemas, em meio a uma rotina intensa de trabalho, estudos e tarefas do cotidiano familiar, pode ser uma saída de emergência, uma rota de fuga, uma válvula de escape, um caminho escorregadio, com pedras e flores em um desfiladeiro, também o Éden perdido ou uma viagem a novos mundos.”

Noemi também é autora dos livros “Portas Abertas” (2010), “Ciranda das Letras: a poética do alfabeto” (2013) e “O Ensino Superior para Estudantes com Deficiência no Chile e no Brasil” (2019).

A Casa InVerso fica na Rua Dr. Goulin, 1523, no Bairro Alto da Glória.

Musicoterapia – CAEMT/ FAP

Primeiro curso de Musicoterapia do Brasil (1971) fundado pela musicoterapeuta Profa.Dra.Clotilde Leinig. Nossa história Unespar Campus de Curitiba II – FAP tem 53 anos de trabalho e muita dedicação. Nosso Centro de Pesquisa e Atendimento em Musicoterapia atende a população de Curitiba e região metropolitana.

Venha fazer MUSICOTERAPIA na Faculdade de Artes do Paraná/ Unespar.

Lançamento Livro: “Margens e Frestas”

Convido todos (as) para o lançamento do meu quarto livro:

O evento será no sábado dia 19/10 das 10:00 às 13:30 na Editora InVerso, na Rua Dr. Goulin 1523, Alto da Glória, Curitiba, PR.
O livro conta com belíssimas ilustrações da artista Leila Alberti e com um QR Code, que direciona para vídeos em Libras.
“Margens e Frestas é uma envolvente coletânea de poesias que transporta o leitor para as paisagens e experiências profundas da vida cotidiana e da natureza brasileira. Noemi Ansay tece narrativas que capturam a essência das comunidades rurais e costeiras do Brasil, revelando o cotidiano de famílias, caçadores e pescadores, enquanto celebra as ricas tradições culturais caiçaras. Além de explorar as raízes e tradições brasileiras, somos guiados para outras paisagens como o Chile, Canadá e Japão, criando um mosaico cultural que aborda desde a beleza do teatro Noh, até os desafios contemporâneos e as crises sociais. Com uma linguagem rica em metáforas e imagens sensoriais, Margens e Frestas é um tributo à conexão entre o ser humano e a natureza, e uma profunda reflexão sobre as histórias que moldam nossas vidas.”

O livro tem ilustrações da artista Leila Alberti e um QR code, que leva o leitor a ver poemas em Libras.

Curitiba

A Curitibana

Trazia dentro de si a intemperança das estações:
invernos sombrios e frios,  primaveras incandescentes,
verões iluminados e outonos impacientes.

Havia dentro dela um tempo não cronológico,
um tempo guiado por sensações sazonais,
por mudanças constantes e imprevisíveis de humor.

Quatro estações em um dia, quatro humores em um dia,
precisava carregar na bolsa: uma sobrinha e uma manta,
uma porção de alegria e outra de desalegria,
de contentamento e de descontentamento.

A cada manhã dedicava-se a garimpar o sitio arqueológico do seu coração
media, marcava  e tomava a picareta nas mãos,
meticulosamente escavava camada por camada,
tirava entulhos, pedras e  pedregulhos,
resíduos, restos de outros tempos e outras gerações.

Trabalhava com afinco,
dia a dia, debaixo de sol e chuva,
todos os dias do anos, e por anos sem fim,
buscando forças para enfrentar o tédio,
os ônibus lotados, as desgraças da vida,
as intempéries de ser gente.

A alma da moça, tão caprichosa
gemia a cada golpe, gritava em silêncio,
insistia em querer entender o mundo,
os desvarios, a loucura, a insanidade do bicho homem.

Não podia compreender a humanidade desumanizada,
a tolerância com a intolerância,
a religião que mata,
e os “ditos” motivos pacíficos das guerras.

Percebia que o mundo girava e que era apenas um cisco no universo,
não conseguia acompanhar a moda das roupas, dos cabelos e das unhas.
Vivia correndo atrás do prejuízo e parecia sempre chegar atrasada.

Não queria agradar a todos, nem poderia, mas obstinadamente tentou.
Desejou então amar a todos, sem distinção de cor e credo,
amar com um coração puro, amar com o coração de Deus.

Viu de tudo um pouco e ainda não viu o bastante,
sentiu mais do que deveria e espantou-se com a força das emoções,
quem poderia abarcar, aprisionar, reter a força de ser tudo de todas as maneiras?

Já não pertencia a um só lugar,
Escutava sinfonias, samba e bossa-nova,
comia barreado, strudel e kafta,
vestia roupa indiana e dançava fandango e tango.

pertencia ao mundo real, dos homens e mulheres de carne e osso
pertencia ao mundo virtual, com seus atalhos e attachments.
pertencia ao bairro, a cidade, ao país e ao mundo.
Moça Curitibana Paranaense Brasileira Globalizada.

Noemi N. Ansay

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