


Convido todos (as) para o lançamento do meu quarto livro:
O evento será no sábado dia 19/10 das 10:00 às 13:30 na Editora InVerso, na Rua Dr. Goulin 1523, Alto da Glória, Curitiba, PR.
O livro conta com belíssimas ilustrações da artista Leila Alberti e com um QR Code, que direciona para vídeos em Libras.
“Margens e Frestas é uma envolvente coletânea de poesias que transporta o leitor para as paisagens e experiências profundas da vida cotidiana e da natureza brasileira. Noemi Ansay tece narrativas que capturam a essência das comunidades rurais e costeiras do Brasil, revelando o cotidiano de famílias, caçadores e pescadores, enquanto celebra as ricas tradições culturais caiçaras. Além de explorar as raízes e tradições brasileiras, somos guiados para outras paisagens como o Chile, Canadá e Japão, criando um mosaico cultural que aborda desde a beleza do teatro Noh, até os desafios contemporâneos e as crises sociais. Com uma linguagem rica em metáforas e imagens sensoriais, Margens e Frestas é um tributo à conexão entre o ser humano e a natureza, e uma profunda reflexão sobre as histórias que moldam nossas vidas.”
O livro tem ilustrações da artista Leila Alberti e um QR code, que leva o leitor a ver poemas em Libras.

A Curitibana
Trazia dentro de si a intemperança das estações:
invernos sombrios e frios, primaveras incandescentes,
verões iluminados e outonos impacientes.
Havia dentro dela um tempo não cronológico,
um tempo guiado por sensações sazonais,
por mudanças constantes e imprevisíveis de humor.
Quatro estações em um dia, quatro humores em um dia,
precisava carregar na bolsa: uma sobrinha e uma manta,
uma porção de alegria e outra de desalegria,
de contentamento e de descontentamento.
A cada manhã dedicava-se a garimpar o sitio arqueológico do seu coração
media, marcava e tomava a picareta nas mãos,
meticulosamente escavava camada por camada,
tirava entulhos, pedras e pedregulhos,
resíduos, restos de outros tempos e outras gerações.
Trabalhava com afinco,
dia a dia, debaixo de sol e chuva,
todos os dias do anos, e por anos sem fim,
buscando forças para enfrentar o tédio,
os ônibus lotados, as desgraças da vida,
as intempéries de ser gente.
A alma da moça, tão caprichosa
gemia a cada golpe, gritava em silêncio,
insistia em querer entender o mundo,
os desvarios, a loucura, a insanidade do bicho homem.
Não podia compreender a humanidade desumanizada,
a tolerância com a intolerância,
a religião que mata,
e os “ditos” motivos pacíficos das guerras.
Percebia que o mundo girava e que era apenas um cisco no universo,
não conseguia acompanhar a moda das roupas, dos cabelos e das unhas.
Vivia correndo atrás do prejuízo e parecia sempre chegar atrasada.
Não queria agradar a todos, nem poderia, mas obstinadamente tentou.
Desejou então amar a todos, sem distinção de cor e credo,
amar com um coração puro, amar com o coração de Deus.
Viu de tudo um pouco e ainda não viu o bastante,
sentiu mais do que deveria e espantou-se com a força das emoções,
quem poderia abarcar, aprisionar, reter a força de ser tudo de todas as maneiras?
Já não pertencia a um só lugar,
Escutava sinfonias, samba e bossa-nova,
comia barreado, strudel e kafta,
vestia roupa indiana e dançava fandango e tango.
pertencia ao mundo real, dos homens e mulheres de carne e osso
pertencia ao mundo virtual, com seus atalhos e attachments.
pertencia ao bairro, a cidade, ao país e ao mundo.
Moça Curitibana Paranaense Brasileira Globalizada.
Noemi N. Ansay
me desloco pelas margens do rio Tagaçaba
arrastando poucos pertences em uma trouxa
aprendi com a lida da vida
que é preciso trabalhar, trabalhar e trabalhar.
pesco, cozinho, carrego lenha,
cuido das crianças.
sento de cócoras na porta da casa,
olho para o céu e faço uma prece.
Noemi N. Ansay
Quando me movo,
algo se move em mim.
Se me movo,
mudo meu ser,
mudo meu corpo.
mudo meu mundo.
Sigo movendo e sendo movida,
por tudo que me toca,
por tudo que desejo,
por todos os meus sonhos.
Lançando-me rumo a galáxias espirais,
em movimentos lentos e contínuos,
para dentro e fora do meu próprio ser,
rumo ao próximo que me olha bem dentro dos olhos,
rumo ao espaço profundo e desconhecido,
com medo tantas vezes,
mas impulsionada por uma chama de vida
que queima dentro do peito.
Noemi N. Ansay

naquele verão canadense
sentiu um frio cortante no Kuno Garden
um sol ameno iluminou sua imaginação:
viu baleias imensas na costa azul
ouviu cantos dos primeiros povos
pela amiga de tantos anos
com quem dividiu tantas canções.
