
de longe te avisto,

Saul está fechado no palácio de seu silêncio,
cativo da melodia de seu pagem e inimigo.
A curva da harpa é um pórtico fechado
que não o deixa entrar no vergel melodioso.
E as finas mãos de David, entre as múltiplas cordas,
são como claros pássaros do outro lado das grades,
seu vôo se aproxima e afasta, alternativo,
vôo elevado, vôo longo e saudoso,
levado pela quimera
até a porta do cântico.
E Saul escuta-o, com o sangue nas têmporas,
atira a lança que vibra no espaço
e enterra-se
na parede.
E Saul ficou de mãos vazias.
Paguiz, Dan (1930) Originário da Rumânia, passou a segunda guerra Mundial num campo de concentração nazista. Sua primeira coleção de poemas publicou-se em 1959.
http://escritablog.blogspot.com/2011/01/lancamentos_29.html
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Colombiana
Vestida toda em ouro, coberta de esmeraldas,
Fina flor latino-americana,
muy preciosa, muy hermosa.
Matricarca de uma grande Nação
de Povos indígenas: Muiscas, Taironas, Tolimas, Guanes
e de grandes cidades: Bogotá, Medelin, Cartagena, Cali, Antioquia.
Com que coragem desnudaram teu corpo moreno?
Invadiram tua casa, saquearam teus tesouros, violaram teus direitos,
marcaram tua pele a ferro e fogo?
Na lembrança distante, ainda se ouve
os gritos de dor, da jovem mãe chorando
a perda de tantos filhos e filhas.
Depois do luto e da dor, Colombiana, mulher aguerrida,
vai a luta, planta, colhe e vende café.
Faz da sua dor, sua força.
Hoje, sonha com dias de paz,
Sonha ao som da cumbia e do joropo,
Sonha com a liberdade do seu povo.
Mãe madura, olha com admiração,
várias gerações de filhos, mistura fina de muitos povos e culturas,
que desafiam o medo do futuro, prontos a enfrentar o que esta no porvir.
N.N.A.
e o que vejo me agrada e não me agrada,
vejo só reflexos,
máscara da qual um dia me libertarei.
Porque, se não o fizer,
me diluirei em lágrimas
e sairei pelo ralo da pia,
serei lançada ao mar e então não haverá mais esperança.
Tem paciência, te peço.
E enquanto puderes, ouça minha dor,
meu lamento, continua a ser meu Porto,
o meu Refúgio, minha Luz e minha Salvação.
N.N.A.
No olho do vizinho o cisco é imenso,
desproporcional, irritante, angustiante,
pequenas falhas e defeitos
tornam-se motivo de longos discursos,
falhas e exageros tão humanos
são a razão para o dedo em riste.
Tão fácil achar o cisco no olho do outro e
ignorar a trave do próprio olho.
A trave cega o bom censo
e faz do cego um critico de tudo e de todos.
Uma coisa é certa,
fácil é condenar,
difícil é amar.
N.N.A.
|
” Não julguem os outros para vocês não serem julgados por Deus. |
|
Por que é que você vê o cisco que está no olho do seu irmão e não repara na trave de madeira que está no seu próprio olho? |
|
Hipócrita! Tire primeiro a trave que está no seu olho e então poderá ver bem para tirar o cisco que está no olho do seu irmão.” Mateus 7: 1,3,5 |
Via Crucis
Mulheres choram, seguindo teus passos,
de longe teus discípulos misturam-se a multidão,
assustados e com medo.
O ódio dos homens cai sobre ti,
cospem em teu rosto.
Silencias.
Silencias.
Silencias.
Como cordeiro que vai ao matadouro.
carregas a coroa do escárnio,
o manto da injustiça,
a cruz dos pecados da humanidade.
tua carne dilacerada,
segue a caminho do Gólgota
sem olhar para trás,
sem arrependimentos,
só por amor,
só por amor,
só por amor.
N.N.A.
Benditas sejam as mulheres,
de todas as etnias, cores e idades,
as que ainda são meninas,
as de vinte, trinta, quarenta,setenta e noventa anos,
as que trabalham e as desempregadas,
as que semeiam, as que colhem,
as que trabalham em linhas de produção,
as motoristas de táxi, de ônibus,
as atletas, as executivas,
as estudantes, as professoras,
as que escrevem, as que lêem,
as médicas e enfermeiras,
todas que cuidam dos amigos,
dos pais, dos irmãos, dos filhos
e dos netos e bisnetos.
Benditas sejam as que esperam,
as que sonham, as que tem esperança,
as que amam demais, que comem demais,
que sonham demais e se doam demais,
as que tem rugas e cabelos brancos,
as de pele de seda e que cheiram jasmim,
as que tem mãos calejadas,
as que são choronas e as que são duronas,
as que foram abandonadas e destratadas,
as que mesmo sofrendo na lida da vida,
cumprem a sina de abençoarem quem as cerca,
que assumem que sua força esta na capacidade
de amar, de chorar, de assumir seus erros,
e de assumir-se como pessoa,
que vive a plenitude de ser MULHER.
querenças
quero um quibe, um quiabo, um quibebe,
quindins, queijadinhas e quixabas
quero um quimono, quartzos e querejuás,
quero ficar quiescente na quaresma.
quero a sombra de uma quinarana,
quero o sossego do quebra-mar.
quero deixar as querelas, queixumes e quizilas.
quero ficar de quarentena em minha querença.
quero o quinhão que me cabe nesta querência,
quero um querubim que me livre das quimeras da vida.
quero a quinta-essência
que ficou escondida no querigma de Deus.
N.N.A.
Cema, Cema, Iracema
Habitam em minha memória,
a casa da Iracema, da tia Cema,
os sofás vermelhos de veludo,
os tapetes sempre impecáveis,
o piano na sala de estar.
os lençóis alvos e perfumados,
o pé de maracujá no quintal,
a foto do casal Levi e Cema
na parede de um cômodo,
tudo sempre em perfeita ordem.
Nunca vi tal esmero com toalhas, louças e talheres.
Dona Cema, dada a muito trabalho
já no inicio do dia, abria janelas e portas,
deixando o sol entrar sem cerimônia,
iluminando os quartos e as vidas.
Memória da dispensa farta,
dos queijos coloniais,
da cozinha, coração e alma da casa,
onde ainda menina
provava a boa comida da tia Cema.
Cema, Cema, Iracema
mulher virtuosa,
mãe de cinco filhos,
vó de oito netos,
tia de muitos sobrinhos.
Amo-te Cema!
Amo seus olhos brilhantes,
que me ensinam que a vida,
ainda que dorida,
vale a pena ser vivida.
Homenagem para querida Tia Cema (in memorian)
Haiti
“Ayiti”, a “Grande Ilha”, a “Pérola das Antilhas”.
A “Ilha das Montanhas”, a “Montanha no Mar”.
A Ilha colonizada por espanhóis e franceses.
A Ilha dos Crioulos e Crioulas.
A Ilha dos escravos que lutaram como príncipes por sua independência.
A Ilha tremeu, tremeu, tremeu
e agora ouve-se seu grito desesperado,
ouve-se sua voz ecoando por toda Terra,
o grito daqueles que perderam o pouco que tinham,
o lamento e as lágrimas que se unem às águas do oceano.
Chora a Ilha das Lindas Praias
das águas cristalinas e serenas.
Choram oito milhões de vidas,
dos quais milhares e milhares
vivem em condições de miséria e fome.
Chora a Ilha das doces frutas
dos “mangos”, “melons”, “cerises” e “ canne”,
a Ilha que outrora foi a mais próspera colônia francesa,
a Ilha que foi explorada pela ganância humana,
chora por seus filhos e filhas que já não são mais.
Chora o Mundo em luto pela perda de milhares de irmãos e irmãs.
Choram as nações amigas a perda de seus soldados, médicos e professores.
Chora o Brasil a perda da médica Zilda Arns.
Chora Geiza Mendes por seus amigos e irmãos haitianos.
Choram também meus olhos em frente às notícias da TV.
“Chorem diante de Deus todos os homens e mulheres da Terra, chorem sobre os corpos jogados pelas ruas do Haiti, clamem por misericórdia ao Rei de toda Terra e juntos estendamos nossos braços em ajuda a linda “Ilha das Montanhas” que chora de dor.”
N. N. A. 14/01/2009
Foto tirada por Geiza Mendes no Haiti.