Ipê Amarelo

Ipê amarelo

Árvore cascuda, 
de longe te avisto,
altaneira e frondosa,
exibe o luxuriante amarelo da vida,
forra o chão da praça em ouro,
tão lindo de se ver.
Meus olhos são atraídos
para a exuberância dos teus galhos,
para a madeira nobre do teu tronco,
para abundância de tuas florzinhas
que chovem como pó de ouro
encharcando de vida os olhos meus.
 Noemi 

Saul e David tocando diante dele

Saul está fechado no palácio de seu silêncio,
cativo da melodia de seu pagem e inimigo.
A curva da harpa é um pórtico fechado
que não o deixa entrar no vergel melodioso.

E as finas mãos de David, entre as múltiplas cordas,
são como claros pássaros do outro lado das grades,
seu vôo se aproxima e afasta, alternativo,
vôo elevado, vôo longo e saudoso,

levado pela quimera
até a porta do cântico.
E Saul escuta-o, com o sangue nas têmporas,
atira a lança que vibra no espaço
e enterra-se
na parede.

E Saul ficou de mãos vazias.

Paguiz, Dan (1930) Originário da Rumânia, passou a segunda guerra Mundial num campo de concentração nazista. Sua primeira coleção de poemas publicou-se em 1959.

Poesia de Israel – tradução Cecília Meirelles


Ontem passeando com a Nicolle, entramos no sebo Fígaro em Curitiba, fomos envolvidas naquele ambiente cativante e nostálgico. O problema é sair dali, porque a cada olhada, cada folhear de um livro, cada vinil antigo, um universo abre-se bem diante dos seus olhos. No meio de tantos achados, encontrei o livro Poesia de Israel, com a tradução de Cecília Meirelles e reproduções fotográficas em alto contraste de desenhos de Cândido Portinari. O livro é de 1962 e o exemplar que adquiri é o Nº 0018. Fiquei encantada e irei ao longo do tempo registrar aqui alguns destes poemas.
Ah….depois da dificuldade de sair do Fígaro, entramos no Empório Al Babá, que perdição….doces árabes maravilhosos….difícil é escolher o que comer….amo doces de rosas, pistache e damasco…
Separação
Um dia, estando entre nós dois o Atlântico,
senti a tua mão na minha;
Agora, tendo a tua mão na minha,
sinto entre nós dois o Atlântico.
Zangwill, Israel (1864-1929)
Rosa Seca
Caiu de um livro no meu regaço
uma dessas velhas
relíquias de um sonho de juventude:
uma rosa seca.
E eu perguntei ao livro de onde vinha
aquela flor.
O livro calou-se: não chegou ao meu ouvido
nem palavra nem som.
Então meus olhos descobriram uma página
onde havia uma nódoa.
Há muito, muito tempo alguém tinha chorado.
Oh, quando e onde?
Beijei a rosa murcha, a rosa seca
e a lágrima também.
Há muito, muito tempo alguém tinha amado:
Oh, quem? e a quem?
Ioash (1870- 1927)
A calma e eu
Ouvi falar da calma.
Não a encontrei.
Pertence a um país
cujo nome não sei.
Está ligada a uma cidade
cujas ruas não atravessei.
Mora numa casa
em cujos peitoris não me debrucei.
É como se a calma
estivesse lá no fim de…
E eu, eu, muito aquém,
como faminto.
Gúri, Haim (1923)

Divulgando no blog escritablospot.com


http://escritablog.blogspot.com/2011/01/lancamentos_29.html


“Portas Abertas: Poética do Cotidiano” é o primeiro livro de poemas de Noemi N. Ansay, que, mestre em Educação, é professora da UEPR, da Faculdade de Artes do Paraná. Além dos poemas, a obra conta com fotos da designer e artista finlandesa Mari Suoheimo. E-mail da autora: noemiansay@gmail.com. Seu blog: noeminascimentoansay.blogspot.com .

29/01/2011

Lançamento do Livro Portas Abertas: poética do cotidiano na C.C.Abba

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Armando Romero Accinelli


Armando Romero Accinelli



Ainda o vejo ali, sempre na mesma esquina da praça,

alto, elegante, atlético aos setenta e dois anos.

Treinador de campeões, peruano “com todo orgulho”,

engenheiro civil, amante da matemática e logarítmos,

sempre soube conciliar estudos e atividade desportiva.



No Peru foi campeão de dezesseis recordes nacionais:

Martelo, corridas de 1.500m, 3.000m, 5.000m, 10.000 m

além de outros títulos nacionais e internacionais

Nos anos oitenta foi laureado com título

de “Gran Atleta” da América Latina.



Nos idos dos anos noventa vem morar no Brasil

onde encontra oportunidades e a falta delas.

Treinou mais de cinquenta atletas de sol a sol,

de segunda a sábado, sem descanso, sem trégua.



Na esquina da praça, com o cronômetro e papel à mão

assoviava para os atletas que o ouviam e reconheciam sua voz.

Atento, preciso, incentivador nato, de uma inteligência rara,

e um grande coração, sofria o abandono de quem mais amava.



Suas dores profundas o faziam desconfiar de tudo e de todos,

não podia acreditar que existia bondade no mundo,

que seria possível ser feliz novamente,

que haveria redenção para a raça humana.



Em meio às dores do corpo e da alma,

seus olhos escureceram,

cego, guiava-se por seus extintos apurados

por sua coragem viril e pela força do seu espírito atlético.



Abandonado, não lhe restaram muitas opções,

já não podia ir a praça, cumprir seu oficio,

não podia mais levantar seus longos braços e assoviar,

incentivando os atletas nos últimos 100 metros da pista.



Sinto saudades de vê-lo ali

naquela esquina da Praça Oswaldo Cruz

palco onde o Professor Armando Romero Accinelli

era um Príncipe e Rei absoluto.



Noemi N. Ansay

O treinador Armando Romero Accinelli treinou a Nicolle de 2006 a 2010, na Praça Oswaldo Cruz no Centro de Curitiba.

Colombiana

Colombiana

Vestida toda em ouro, coberta de esmeraldas,
Fina flor latino-americana,
muy preciosa, muy hermosa.

Matricarca de uma grande Nação
de Povos indígenas: Muiscas, Taironas, Tolimas, Guanes
e de grandes cidades: Bogotá, Medelin, Cartagena, Cali, Antioquia.

Com que coragem desnudaram teu corpo moreno?
Invadiram tua casa, saquearam teus tesouros, violaram teus direitos,
marcaram tua pele a ferro e fogo?

Na lembrança distante, ainda se ouve
os gritos de dor, da jovem mãe chorando
a perda de tantos filhos e filhas.

Depois do luto e da dor, Colombiana, mulher aguerrida,
vai a luta, planta, colhe e vende café.
Faz da sua dor, sua força.

Hoje, sonha com dias de paz,
Sonha ao som da cumbia e do joropo,
Sonha com a liberdade do seu povo.

Mãe madura, olha com admiração,
várias gerações de filhos, mistura fina de muitos povos e culturas,
que desafiam o medo do futuro, prontos a enfrentar o que esta no porvir.

N.N.A.

Pelo ralo

Por hora, só posso olhar-me no espelho,

e o que vejo me agrada e não me agrada,

vejo só reflexos,

máscara da qual um dia me libertarei.


Porque, se não o fizer,

me diluirei em lágrimas

e sairei pelo ralo da pia,

serei lançada ao mar e então não haverá mais esperança.


Tem paciência, te peço.

E enquanto puderes, ouça minha dor,

meu lamento, continua a ser meu Porto,

o meu Refúgio, minha Luz e minha Salvação.


N.N.A.

Cisco

Cisco

No olho do vizinho o cisco é imenso,

desproporcional, irritante, angustiante,

pequenas falhas e defeitos

tornam-se motivo de longos discursos,

falhas e exageros tão humanos

são a razão para o dedo em riste.



Tão fácil achar o cisco no olho do outro e

ignorar a trave do próprio olho.

A trave cega o bom censo

e faz do cego um critico de tudo e de todos.

Uma coisa é certa,

fácil é condenar,

difícil é amar.

N.N.A.

” Não julguem os outros para vocês não serem julgados por Deus.

Por que é que você vê o cisco que está no olho do seu irmão e não repara na trave de madeira que está no seu próprio olho?

Hipócrita! Tire primeiro a trave que está no seu olho e então poderá ver bem para tirar o cisco que está no olho do seu irmão.”

Mateus 7: 1,3,5

Sobreviventes




Sobreviventes

Sou triste? Às vezes preocupada, cansada de tudo, talvez pessimista?
Perdoa-me, perdoa-me te peço.
Se estivesse em minhas mãos,
oferecer-te-ia dias de sol, quentes e abundantes de luz,
lâmpadas incandescentes em um mundo frio e caótico.

O jardim do Éden, um mundo perfeito,
dias de harmoniosa música,
ou ao menos, de vez em quando,
uma hora de amizade sincera.

Mas hoje não posso, agora não posso,
o jardim está fechado para visitas.
e o tempo do fim chegou, o tempo do anticristo,
o tempo da falta e do excesso de tudo.

Mas, tem paciência se puderes,
ainda viveremos dias de Paz,
ainda teremos uma segunda chance na terra dos viventes.

Pois é certo que sobreviveremos a tudo,
ao silêncio das multidões,
o excesso das vozes,
a ausência dos que se foram,
as tempestades e terremotos,
a fome, a nudez, a espada,
a falta de bens,
a falta de amigos,
a falta de sonhos,

Só não sobreviveremos à falta da Fé, da Esperança e do Amor.
N.N.A.

Via Crucis


Via Crucis


Mulheres choram, seguindo teus passos,

de longe teus discípulos misturam-se a multidão,

assustados e com medo.

O ódio dos homens cai sobre ti,

cospem em teu rosto.

Silencias.

Silencias.

Silencias.

Como cordeiro que vai ao matadouro.

carregas a coroa do escárnio,

o manto da injustiça,

a cruz dos pecados da humanidade.

tua carne dilacerada,

segue a caminho do Gólgota

sem olhar para trás,

sem arrependimentos,

só por amor,

só por amor,

só por amor.


N.N.A.

Mulheres

Mulheres

Benditas sejam as mulheres,

de todas as etnias, cores e idades,

as que ainda são meninas,

as de vinte, trinta, quarenta,setenta e noventa anos,

as que trabalham e as desempregadas,

as que semeiam, as que colhem,

as que trabalham em linhas de produção,

as motoristas de táxi, de ônibus,

as atletas, as executivas,

as estudantes, as professoras,

as que escrevem, as que lêem,

as médicas e enfermeiras,

todas que cuidam dos amigos,

dos pais, dos irmãos, dos filhos

e dos netos e bisnetos.

Benditas sejam as que esperam,

as que sonham, as que tem esperança,

as que amam demais, que comem demais,

que sonham demais e se doam demais,

as que tem rugas e cabelos brancos,

as de pele de seda e que cheiram jasmim,

as que tem mãos calejadas,

as que são choronas e as que são duronas,

as que foram abandonadas e destratadas,

as que mesmo sofrendo na lida da vida,

cumprem a sina de abençoarem quem as cerca,

que assumem que sua força esta na capacidade

de amar, de chorar, de assumir seus erros,

e de assumir-se como pessoa,

que vive a plenitude de ser MULHER.

com carinho
Noemi

Querenças

querenças


quero um quibe, um quiabo, um quibebe,

quindins, queijadinhas e quixabas


quero um quimono, quartzos e querejuás,

quero ficar quiescente na quaresma.


quero a sombra de uma quinarana,

quero o sossego do quebra-mar.


quero deixar as querelas, queixumes e quizilas.

quero ficar de quarentena em minha querença.


quero o quinhão que me cabe nesta querência,

quero um querubim que me livre das quimeras da vida.


quero a quinta-essência

que ficou escondida no querigma de Deus.


N.N.A.

Cema, Cema, Iracema

Cema, Cema, Iracema



Habitam em minha memória,
a casa da Iracema, da tia Cema,
os sofás vermelhos de veludo,
os tapetes sempre impecáveis,
o piano na sala de estar.



os lençóis alvos e perfumados,
o pé de maracujá no quintal,
a foto do casal Levi e Cema
na parede de um cômodo,
tudo sempre em perfeita ordem.


Nunca vi tal esmero com toalhas, louças e talheres.
Dona Cema, dada a muito trabalho
já no inicio do dia, abria janelas e portas,
deixando o sol entrar sem cerimônia,
iluminando os quartos e as vidas.


Memória da dispensa farta,
dos queijos coloniais,
da cozinha, coração e alma da casa,
onde ainda menina
provava a boa comida da tia Cema.


Cema, Cema, Iracema
mulher virtuosa,
mãe de cinco filhos,
vó de oito netos,
tia de muitos sobrinhos.


Amo-te Cema!
Amo seus olhos brilhantes,
que me ensinam que a vida,
ainda que dorida,
vale a pena ser vivida.

Homenagem para querida Tia Cema (in memorian)

Silêncio nas Águas

desejo mergulhar
no silêncio e sossego
de águas profundas, azuis e geladas,
despir-me do egoísmo e do orgulho
mergulhar em águas purificadoras
para lá encontrar-me
e ser encontrada
pela Presença Eterna
Daquele que é Onipresente e Onipotente.

n.n.a

Foto do meu amigo Daniel Solyom em sua casa em Denton, TX

Choro pelo Haiti

Haiti

“Ayiti”, a “Grande Ilha”, a “Pérola das Antilhas”.

A “Ilha das Montanhas”, a “Montanha no Mar”.

A Ilha colonizada por espanhóis e franceses.

A Ilha dos Crioulos e Crioulas.

A Ilha dos escravos que lutaram como príncipes por sua independência.



A Ilha tremeu, tremeu, tremeu

e agora ouve-se seu grito desesperado,

ouve-se sua voz ecoando por toda Terra,

o grito daqueles que perderam o pouco que tinham,

o lamento e as lágrimas que se unem às águas do oceano.



Chora a Ilha das Lindas Praias

das águas cristalinas e serenas.

Choram oito milhões de vidas,

dos quais milhares e milhares

vivem em condições de miséria e fome.



Chora a Ilha das doces frutas

dos “mangos”, “melons”, “cerises” e “ canne”,

a Ilha que outrora foi a mais próspera colônia francesa,

a Ilha que foi explorada pela ganância humana,

chora por seus filhos e filhas que já não são mais.



Chora o Mundo em luto pela perda de milhares de irmãos e irmãs.

Choram as nações amigas a perda de seus soldados, médicos e professores.

Chora o Brasil a perda da médica Zilda Arns.

Chora Geiza Mendes por seus amigos e irmãos haitianos.

Choram também meus olhos em frente às notícias da TV.



“Chorem diante de Deus todos os homens e mulheres da Terra, chorem sobre os corpos jogados pelas ruas do Haiti, clamem por misericórdia ao Rei de toda Terra e juntos estendamos nossos braços em ajuda a linda “Ilha das Montanhas” que chora de dor.”

N. N. A. 14/01/2009

Foto tirada por Geiza Mendes no Haiti.

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