Orfandade – Adélia Prado

Orfandade
Meu Deus,
me dá cinco anos.
Me dá um pé de fedegoso com formiga preta,
me dá um Natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,
me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande,
ó meu Deus, meu pai,
meu pai.
Adélia Prado
Livro: Bagagem, Ed. Record, 2007, p. 12

Poemas Alfabéticos: Em memória do ‘y’



Em memória do “Y”
Lygia, Curitybana
Eloy, Nitheroyense,
Encontraram-se no Lyceu das letras aposentadas,
Ela tyipographa,
Ele toca lyra,
Ela faz analyse,
Ele é encyclopedico,
Ela cheira yasmim, lyrio, ylang-ylang,
Ele tem sangue guerreiro goytacaz,
Ela viajou para Parayba,
Ele para Goyaz,
Ela derramou milhares de lagrymas,
Ele escreveu uma encyclica,
Encontraram-se sessenta e seis anos depois,
celebraram Yom Kippur,
depois da nova reforma ortográfica.
n.n.a.
* Em 1943 as letras w,y, k foram tiradas do alfabeto da língua portuguesa e só voltaram a fazer parte dele na Nova Reforma Ortográfica a partir de 2009.

Poema Alfabéticos: Kafkaniano

Kafkaniano
Kelvin lê Kafka.
Cogita ser um kamikaze,
fazer teatro kabuqui,
refugiar-se em um Kibutz,
ler Kant, Kundera, Kipling,
ver Klimt, Klee, Kandinsky
enigmático, reflete o kafkaniano,

como enfrentarei esta katharsi?

O que serei depois desta Metamorfose?

n.n.a

Portraits

La vie em close II

Nossas verdades…
as mais difíceis e duras,
as mais arcaicas e infantis,
as mais reprimidas e desinibidas,
todas expostas e enfileiradas
sob uma luz fria e transparente.

Verdades nuas e cruas,
sólidas, líquidas, fluídas,
em tons acinzentados,
esverdeados e lilases,
com seus contornos disformes,
com linhas abertas, lançadas ao horizonte.

Nossa humanidade,
contraditória, complexa,
racional, emocional,
orgânica, visceral,
fraca e temerosa,
com seus pedaços jogados pelo chão.

Nossas memórias,
do vivido e sonhado,
dos amigos e parentes,
arquivadas em pastas,
pacotes, baús, porões
sotons e sepulcros.

Nossas marcas,
deixadas em tudo que fazemos ou tocamos,
uma parte do que somos,
tatuadas em gente, em coisas, no trabalho,
marcas, as vezes feitas a ferro e fogo
marcas inscritas na pele.

Nossas músicas,
sonoridades em construção,
ritmo, melodia e harmonia,
que falam ao corpo, a mente, e emoções.
Músicas emprestadas de outros
para comunicar sentimentos próprios.

Nossos sons,
mais internos e profundos,
viscerais e involuntários,
um coração pulsante,
uma respiração ofegante,
uma mente ruidosa.

Nossas (in)capacidades
fonte inesgotável de possibilidades,
de novos horizontes,
impulso para criar, redescobrir-se,
reencontrar-se,
limites que apontam para o novo.

Nossas vidas,
filmadas, fotografadas,
por lentes que amplificam
a alegria e a dor.
É a vida em close
pra quem quiser e puder ver .

N.N.A 28/06/2008

Chuvisco, o melhor doce do Brasil

 

 

 

Chuviscos


Chuviscos  cristalizados,
em calda, caramelados  e coloridos,
com chocolate e com passas.
Doce predileto da nobreza,
de D. Pedro I a Kubitschek,
primo das Ambrosinas, Fios de ouro e Papos de Anjo,
saiu de  Portugal e ganhou o mundo.
Dona Nize, a “Mulata Teixeira”,
Campista, doceira famosa, “Rainha dos Chuviscos”
generosa, não guardou segredo e espalhou  a receita,
encheu de doçura a mesa  e o bolso de muita gente.
Açúcar, ovos, trigo, água, creme de arroz,
simples e sofisticado,
artesanal e industrial,
doce, tão doce, tão doce…
Chuva adocicada,
chuva de pingos de ouro,
chuva Portuguesa,
hoje, chuviscos brasileiros.
 
n.n.a
 

 

Poema: O açougue

O Açougue

O dia escureceu rápido,
no açougue a luz estava acesa,
só o admirável açougueiro trabalhava,
tão gentil e habilidoso,
conhecedor da anatomia bovina,
não errava um corte,
suas mãos firmes e calejadas
separavam a capa de filé, o acém,
a paleta, o lagarto,
o filé mignon, o contrafilé.

Já o boi, o pobre boi,
morreu sem poder reclamar,
resignado,  teria que suportar tudo,
a dor da morte, da rejeição,
a mortificação dos órgãos,
o talho afiado do cutelo,
o peito aberto, o coração partido,
a sina era virar um montão de ossos.

Para o açougueiro são os “ossos do oficio”,
para o boi é o fim de tudo,
mundo mau, mundo mau,
onde homens e bois amordaçados,
seguem em silêncio,
rumo ao abatedouro.

n.n.a

Homenagem para Haroldo Dinho

No dia 24 de janeiro faleceu nosso querido amigo Haroldo Dinho com 33 anos, no RJ.
Durante muitos anos cantamos juntos no vocal da igreja. Gravamos muitas vezes no estúdio juntos, ele tinha um tenor afinadíssimo e era uma pessoa gentil, educada. Sentiremos saudades….

Foi cantar no Céu

Para Haroldo Dinho ( in memorian)

Este menino andava sempre de bem com vida,

incansável  na arte de ser gentil e educado,

vivia sorrindo, fazendo elogios, cantando e saltando,

feito um bezerrinho que sai da estrebaria.



Este menino,  fez de tudo um pouco na vida:

trabalhou  na igreja, fez pizzas, vendeu livros,

estudava música e cantava,  ah…como cantava,

seu tenor era de uma precisão e afinação  invejáveis.



Este menino mesmo na dor,

encontrou motivos para ser grato,

para cantar e louvar seu Criador,

não reclamava, só cantava.



Haroldinho partiu para o Eterno,

foi fazer o que mais gostava na vida.

No céu, junto com os anjos afinadíssimos,

uniu-se ao coro celestial,

onde cantará por toda eternidade. 


n.n.a

Poemas Alfabéticos "C"

 
Calidoscópio

Calamidade no corpo, cabeça e coração.
No corpo cárcere, calafrio, congestão,
na cabeça cálculo, cápsula, convulsão,
no coração cólera, calvário,  colapso.
Como alcançar compaixão?
Como compreender o congelamento do coração?
 
n.n.a.

Poema traduzido do Prêmio Nobel de literatura Tomas Tranströmer

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/986556-leia-poema-do-vencedor-do-nobel-tomas-transtromer.shtml

Escritor sueco Tomas Tranströmer é o vencedor do Nobel de Literatura de 2011

“Os fios elétricos
estendidos por onde o frio reina
Ao norte de toda música.

O sol branco
treina correndo solitário para
a montanha azul da morte.
Temos que viver
com a relva pequena
e o riso dos porões
Agora o sol se deita.
sombras se levantam gigantescas.
Logo logo tudo é sombra.
As orquídeas.
Petroleiros passam deslizando.
É lua cheia.
Fortalezas medievais,
cidades desconhecidas, esfinges frias,
arenas vazias.
As folhas cochicham:
Um javali está tocando órgão.
E os sinos batem.
E a noite se desloca
de leste para oeste
na velocidade da lua.
Duas libélulas
agarradas uma na outra
passam e se vão
Presença de Deus.
No túnel do canto do pássaro
uma porta fechada se abre.
Carvalhos e a lua.
Luz e imagem de estrelas salientes.
O mar gelado.”

Tomas Tranströmer

Café no Mercado

 

 

Café no Mercado

 

Pausa para um café,

companhia  ilustre,

aroma envolvente no mercado municipal  de Curitiba,

mistura  fina de humanos e seus universos sonoros.

Ah!  A profundidade do mundo não-verbal,

do não falado,  mas sentido,

do visto, do tocado,

do cheirado, do degustado,

das expressões mínimas,

reveladoras  do inefável,

do inexprimível,  do inconfessável.

 

Caffea arábica e Conillon

verde, torrado, moído,

percolato, coado, expresso,

solúvel , turco, italiano,

em seus corpos e cheiros diversos,

Carioca, Pingado,

Capuchino, Café latte,

Macchiato, Mocha,

Irish coffe, Jacu Bird.

 

Obcecados pela “xícara perfeita”,

humanos, baristas de sua existência

expressam no não-verbal,

suas identidades,

suas dores e alegrias cotidianas

buscam uma vida plena,

uma vida que tenha gosto, aroma e sentido,

uma vida em que seja possível

estar em comunhão consigo mesmo,

com o próximo e com mundo.

 

Noemi N. Ansay

Tive o prazer de acompanhar o Drº Benenzon e a Marcela Lichtensztejn  em um delicioso café e escrevi  este poema em honenagem a eles.


Cândido – Jornal da Biblioteca Pública do Paraná

http://issuu.com/bibliotecapr/docs/candido2?mode=embed

Passiflora Incarnata



Passiflora Incarnata

Rubra flor, 
em tons que vão do branco ao roxo,
exótica flor de maracujá,
flor mimada, só gosta do Sol,
e quando ele chega,
faceira, abre-se lentamente,
espreguiça seus estames e carpelos,
libera de suas câmaras internas
néctar em abundância,
pronta…
espera pelo beija-flor.

N.N.A.

Estado Terminal





Estado Terminal




no corpo as marcas de quem já viveu o bastante,
sentiu o bastante, sofreu o bastante e amou o bastante.
pele flácida, seios murchos, olheiras profundas,
rugas e manchas tatuam o rosto envelhecido,
restos da vaidade  de um tempo que não mais existe.

alma inquieta, sobrevivente de naufrágios,
de perdas irreparáveis, do aniquilamento,
das desgraças, desafetos e despeitos.
alma experiente, matuta e sábia,
que já viu e experimentou de quase  tudo nesta terra.

o corpo já não responde mais,
aos  analgésicos, antibióticos e opináceos,
está silente, acomodado e inerte,
músculos e ossos definhando a cada minuto,
acabam-se sem acabar, sem findar.

alma valente agarra-se ao corpo,
violenta vontade de viver, a impede de ir,
alma audaciosa, quer ficar um pouco mais,
ver um pouco mais os olhos que ama,
ouvir um pouco mais as vozes que ama.


No céu a porta já está aberta,
os anjos dizem:
– Vem, vem, vem!
o corpo já morto pede pra ir,
mas a alma, tão lúcida, viva e corajosa insiste em ficar.

N. N.A.

Poetica – Juan Gustavo Cobo Borda




¿ Cómo escribir ahora poesía,
por qué no callarmos definitivamente
y dedicarnos a cosas mucho más útiles?
 ¿ Para qué aumentar las dudas,
reviver antiguos conflictos,
imprevistas ternuras;
ese poco de ruido
anãdido a un mundo
que lo sobrepasa y anula?
 ¿ Se aclara algo con semejante ovillo?
Nadie la necesita.
Residuo de viejas glorias,
 ¿a quién acompanã, qué heridas cura?


Juan Gustavo Cobo Borda ( poeta colombiano)

O cumprimento – Gustav Klimt

O que devo ao mundo?






O que devo ao mundo?


dias, meses e anos de trabalho?

maneiras etiquetadas de comer, beber e vestir?

ter respostas prontas para os problemas alheios?

ser simpatizante de todas as causas?

ter plano de saúde, cartão de crédito, seguro de vida?

ter cinco mil amigos nas redes sociais?

consumir o que a tv vômita todos os dias?

beber  refrigerantes e comer enlatados ?

acumular dinheiro e bens?

ser politicamente correto?





O que devo ao mundo?

amar aos homens e mulheres incondicionalmente,

cuidar do meu quintal, da minha tribo, do meu planeta,

respeitar e acolher as diferenças e singularidades de cada humano,

demonstrar atitudes éticas e amorosas,

falar em favor dos injustiçados,

chorar por aquilo que não posso mudar,

trabalhar para construir um mundo melhor,

oferecer minha amizade e meu ombro amigo.


O que devo ao mundo?

amar quem sou, o que faço, o que tenho,

amar as pessoas como se não houvesse amanhã,

amar a Deus fonte de todo AMOR.


N.N.A.

contranarciso Paulo Leminski

Contranarciso 

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas


o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós.

Paulo Leminski ( 1985. p.12)

Sertões….

O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos…Viver- não é- , é muito perigoso. Por que ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo. O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca….

Guimarães Rosa
Grande Sertão Veredas.

João da Cruz e Souza poeta nascido em Florianópolis

Flor do Mar
És da origem do mar, vens do secreto,
Do estranho mar espumaroso e frio
Que põe rede de sonhos ao navio
E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.


Possuis do mar o deslumbrante afecto
As dormencias nervosas e o sombrio
E torvo aspecto aterrador, bravio
Das ondas no atro e proceloso aspecto.


Num fundo ideal de púrpuras e rosas
Surges das águas mucilaginosas
Como a lua entre a névoa dos espaços…


Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
Auroras, virgens musicas marinhas
Acres aromas de algas e sargaços…
Cruz e Sousa

Grande Sertão: veredas



Em tempos de tragédias mundiais é bom lembrar da sabedoria do sertanejo, descrita de forma poética e muito verdadeira por Guimarães Rosa no livro Grande Sertão: veredas. 

Todos estão loucos, neste mundo ? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores, diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso da loucura . Deus é quem sabe. ( 1984, p. 291)

Lançamento nas Livrarias Curitiba dia 31 de março.


http://www.livrariascuritiba.com.br/cultureagenda.aspx

PORTAS ABERTAS: POÉTICA DO COTIDIANO 
Livrarias Curitiba – Shopping Estação 
31/03/2011 (Quinta-feira)
19h30

Sessão de autógrafos no lançamento do livro “Portas abertas: poética do cotidiano”, de Noemi Ansay. O livro de poemas prima pela autenticidade expressiva. Em cada verso é perceptível o alicerce da autora na sua fé em Deus, de modo que o revela na sua busca permanente pelo Divino em cada um de nós. Com voracidade indomável capta o indelével, nas pequenas e grandes coisas da vida cotidiana, de lugares diversos, que evocam lembranças coloquiais ou históricas, fazendo da leitura deste livro um deleite ao leitor. No dia do evento, haverá uma exposição de fotos da designer finlandesa Mari Suoheimo, a qual contribui com imagens na obra.

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