Surdina
Quem toca piano sob a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?
Minha vida, numa poltrona
jaz, diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens – é a longa
rota do tempo, descoberta.
Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som, descoloridos.
A chuva interfere na música.
Tocam tão longe ! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia…
Cecília Meireles
(p.136)
Livro: Flor de Poema
Ed. Nova Fronteira
Rio de Janeiro: 1983


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