Porque aquele dia foi o mais iluminado de todos os que já vivi, porque o vento tocava suavemente um canavial e refletia uma luz terna em meus olhos, porque até as ruínas daquela velha escola falavam no meio daquela estrada poeirenta. Porque havia em meu coração um pulsar destemido, uma coragem, pra além do meu costumeiro medo, porque as cicatrizes eram tão similares, que chegavam a se confundir, porque tudo que eu queria era ver o avesso e o profundo, porque desejei tanto dar e receber afeição. Talvez, porque ainda persista viver em mim, uma menina mimada, que nunca conseguiu lidar com perdas e suas consequências. Por isso, pisei descalça, me despi, me derramei, fiquei vulnerável, quase enlouqueci. Porque era preciso, porque era urgente, porque não poderia ser diferente, apesar de todas as evidências contrárias aquela sede de viver. Porque chuviscos são doces. Porque a música não precisa de explicações. Porque mesmo vivendo distante do mar, posso senti-lo todos os dias, sinto seu frescor em meus pés e sua profundidade por todo o meu ser. Porque a vida tem caminhos desconhecidos, às vezes pedregosos, às vezes floridos, às vezes temidos e às vezes tão amados. Porque viver é amar e amar é infinitamente mais desejável e nobre do que não amar.
noemi n.ansay


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