Chico Buarque – Uma Palavra

Uma Palavra
Chico Buarque

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d’agua pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra

Poema: Virose


Virose

Maldita virose,
atingiu-me em cheio,
foram sequências de golpes:
jabes, diretos e cruzados,
fui a nocaute já no primeiro assalto.
Garota má,
açoitou-me com calafrios dos pés a cabeça.
e na queda de braço, perdi.
Fui dominada por vertigens, enjoos  e  febre,
prostrada na cama,
não tinha ânimo pra nada.
Nunca almejei tanto, um bom chá de boldo,

um analgésico e uma dose generosa de Plasil.


n.n.a

Jerusalém, cidade perfumada

JERUSALÉM, CIDADE PERFUMADA

Cidade Santa, cercada de montanhas,
conheces de perto a dor e a destruição,
por tuas ruelas caminham povos,
gente de todas as partes,
de todas as línguas e crenças.

Adornada, segura de quem és,
seu alicerce é de ouro,
suas vestes cheiram mirra,
és a mais perfumada,
a mais linda flor do deserto.

Queria pousar meus olhos sobre ti,
sentir o aroma que sobe das ruas até o cume dos montes,
o perfume das oliveiras,
da canela, da noz, do cravo,
a mistura  de páprica, açafrão e zattar.

Jerusalém, Jerusalém:
a Cidade do Livro Sagrado,
a Cidade das Doze Tribos,
o Oásis da Paz,
a Cidade do Alto,
a Cidade do Muro,
a Cidade do Messias,
a Casa do Deus Altíssimo.


Orem pela paz de Jerusalém: “Vivam em segurança aqueles que te amam!
Salmos 122:6

Lançamento nas Livrarias Curitiba

Mulheres que fazem: Silvia Andreis, Rita Maestri, Lilian Anna, Mari Suoheimo

Um dia chega a primavera…

Provença – França

quem me dera
até para a flor o vaso
um dia chega a primavera

Paulo Leminski

Poesia em Libras: Soneto da Fidelidade Vinícius de Morais

Vinicius de Moraes, “Antologia Poética”, Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.

Poema: Filho Amado


Filho Amado

Bastou uma semente no útero aquecido e fértil,
a vida germinou,
nasceu linda, exuberante e doce.
Cresceu, agigantou-se e
num esforço descomunal,
veio ao mundo.
Um filho, fruto da dor e do amor,
nasceu nu, indefeso,
precisava de cuidados,
tinha os olhos brilhantes do pai,
de um castanho que lembrava
o tronco das árvores, 
a terra de campos,
e tinha a pele macia 
como um pêssego.
Era um menino sentimental,
que amava as letras,
andava com o dicionário a tiracolo.
Tornou-se um erudito,
o orgulho dos seus pais,
um formoso arvoredo,
cheio de flores e frutos,
trouxe um pouco de sossego
à corações cansados,
alento e paz a quem
tanto precisava.

n.n.a

Steve Reich e Poesia


Poema: A Trama do Poema

Grávida de um poema
a  vida pulsa no ventre sobressalente,
palavra que sobeja, arfa, soluça, chora,
imersa no mar infinito da gramática.

Tamanha sede de viver,
o poema  nasce nu e cru.
neonato indefeso  e frágil
desamparado  em um mundo letrado.

O que poderá dizer ao mundo?
O indizível?  O bizarro?
O sagrado?  O pérfido?
O amorfo? O incompreensível?

Poderá expressar…
as regiões quietas e insondáveis do ser?
o cheiro de uma flor orvalhada?
o  gosto de fruta tirada do pé?

O poema  nasce do excesso da luz e da sombra,
da névoa branca semitransparente,
do recôndito, do milagre, da inexatidão

Do âmago acre dialético da vida,
das querimônias e quérqueras
do quimo amargo digerido no ventre.

Melífluo dos encontros improváveis
surpresas da existência fluida da vida
das intransigências intransponíveis do cotidiano.

No poema as palavras deslizam
como seixos no fundo de um rio,
correm para o mar quieto, insondável e infinito.

 n.n.a

Palavra – Pablo Neruda


“A palavra” do poeta Pablo Neruda (1978)

“[…] Persigo algumas palavras… São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema… Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas… E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as… Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda… Tudo está na palavra… Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu… Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que, se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes… São antiquíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada…”

Lançamento do Livro: Ciranda das Letras: a Poética do Alfabeto nas Livrarias Curitiba


O livro de Noemi Nascimento Ansay, mais que cirandar por entre letras, evocando múltiplas imagens, ciranda diante da natureza e da alma humana. Tal como as marés, que vêm e vão, por vezes feitas de águas tranquilas e cintilantes, por vezes, imponentes e arrebatadoras, também os poemas da Noemi trazem, alguns, a doce sensação da plenitude, em recortes do cotidiano, enquanto que outros desnudam a instabilidade, o vazio, o medo diante do mar da vida, suas maresias e tempestades, do qual somos todos navegadores aprendizes. Ver os poemas de Noemi Nascimento Ansay traduzidos para a Libras, além de constituir-se em um deleite à parte, eleva o livro à condição bilíngue do cirandar das letras escritas em Língua Portuguesa para a corporificação por meio das mãos sinalizantes de Rita Maestri, na Língua de Sinais.


Profª Drª Silvia Andreis Witkoski

Leitura: Confesso que vivi – Pablo Neruda

Pablo Neruda nasceu no dia 12 de julho de 1904, no Parral, no Chile. Foi prêmio Nobel de literatura em 1971. Sua obra é vasta e muito premiada, pela beleza, engajamento político e um olhar instigante e inquieto do mundo. Morreu a 23 de setembro de 1973 em Santiago do Chile.

O relato do seu primeiro livro é comovente e diz muito aqueles que ousam registrar no papel sua
“mirada” do mundo. Os desafios são grandes, mas não intransponíveis. Ousadia eis a palavra de ordem!!

Pablo narra em seu livro de memórias ” Confesso que vivi”  (1984):

Meus primeiros livros

Em 1923 foi publicado meu primeiro livro: Crepusculario. Para pagar a impressão tive dificuldades e vitórias a cada dia. Vendi meus poucos móveis. Na casa de penhores foi parar rapidamente meu relógio que solenemente me tinha presenteado meu pai, relógio em que ele tinha mandado pintar duas bandeirinhas entrelaçadas. O relógio foi seguido pelo meu traje negro de poeta. O impressor era inexorável e, por fim, pronta totalmente a edição e coladas as capas, disse com ar sinistro: ‘Não, não levará um só exemplar sem antes me pagar tudo.” O crítico Alone proporcionou generosamente os últimos pesos, que foram tragados pelas mandíbulas de meu impressor; e saí para a rua com meus livros debaixo do braço, com os sapatos rotos e louco de alegria.
Meu primeiro livro! Sempre sustentei que a tarefa do escritor não é misteriosa, nem mágica, mas que, pelo menos a do poeta, é uma tarefa pessoal, de benefício público. O que mais se parece com a poesia é o pão ou um prato de cerâmica ou uma madeira delicadamente lavrada, ainda que por mãos rudes.  No entanto creio que nenhum artesão pode ter, como o  poeta tem, por uma única vez durante a vida, esta sensação  embriagadora do primeiro objeto criado por suas mãos, com a desorientação ainda palpitante de seus sonhos. É um momento que não voltará nunca mais.

Pablo Neruda
NERUDA, Pablo. Confesso que vivi. Memórias. São Paulo: Difel, 1984

Poema: Grito da Caverna


Dentro da caverna o homem grita: 

–  Quero morrer ! 

A Vida do lado de fora convida : 

– Venha pra fora e Viva !


n.n.a

Poema: Valsa

Valsa
braços entrelaçados
renúncia e acolhimento
dançam sem olhar o tempo
olhos lacrimosos 
corpos ausentes
dor pungente
a renúncia, era a salvação
o verdadeiro heroísmo
a aceitação do imudável
o acolhimento, única condição
para continuar existindo
o consolo no meio da tempestade
a renúncia carente, precisava do acolhimento
o acolhimento só podia valsar se fosse com ela
eram um par inseparável
A renúncia teimosa
demorada e lenta para aprender
um dia aprenderia o caminho para libertação
o acolhimento, mais generoso
lhe mostraria
o caminho da misericórdia.
n.n.a

Transpenumbra

Transpenumbra

       tempestade
que passasse
    deixando intactas as pétalas
você passou por mim
          as tuas asas abertas
                   passou
      mas sinto ainda uma dor
      no ponto exato do corpo
      onde tua sombra tocou
        que raio de dor é essa
        que quanto mais dói
               mais sai sol?

                                            paulo leminski

LEMINSKI, P. Toda Poesia.São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 268

Poema: Gavetas


Gavetas

para organizar o pensamento

arrumou gavetas
enfileirou sapatos
lavou três tanques de roupas
separou os garfos das colheres
arrumou papéis e livros
respondeu e-mails
deu banho no cachorro
fez uma faxina na casa
foi ao salão, cortou o cabelo
fez as unhas da mão e do pé
a noite, esgotada, dormiu
no outro dia ao acordar
começaria a organizar tudo de novo.
n.n.a

Pétala – Paulo Leminski

pétala
não caia esse orvalho

olho
não perca essa lágrima

auras que já se foram 
grato pela graça
a graça que eu acho
em tudo que fica
por tudo que passa

Paulo Leminski

LEMINSKI, P. Toda poesia Paulo Leminski. São Paulo: Companhia das letras, 2013, p. 57.

Fernando Pessoa: Eros e Psique

Final de semana com a Nick, pena que passa tão rápido !!!

Ontem ficamos juntas lendo poemas do Fernando Pessoa e seus homônimos, uma experiência linda.A Nick ficou me explicou sua interpretação para o poema

Eros e Psique

Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

Frase: “The Sea”- John Banville

Era um suntuoso, isso mesmo, um suntuoso dia de outono, com todos aqueles cobres e ouros bizantinos sob um céu de Tiepolo, de um azul-esmaltado. O campo estava parado e com uma aparência vítrea, mas parecendo o seu próprio reflexo na superfície calma de um lago. Era do tipo do dia em que, ultimamente, o sol tem me parecido o olho empapuçado do mundo, observando tudo com o maior prazer, enquanto eu fico aqui me contorcendo na minha infelicidade.

“The Sea”- John Banville – 2005

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