Poema: Benquerer – Adagio for Strings, Op. 11, Samuel Barber

Benquerer
Beija-flor benfazejo
beija begônias, buganvílias,
brincos de princesa, bocas de leão.
Brilhoso baila brincando por entre
Baobás, Babaçus, Báctris e Buritis.
Belicoso beija a bailarina.
que balbucia benevolente
a bendita benção da vida.
(Noemi N. Ansay)

 

Dentro e fora de SI

“Em Si-mesmo o Si é o que está dentro de Si e que 
extravasa para fora de Si.”
n.n.a

Poema: Banho no Chá



Banho no Chá

Pele de porcelana, alva como a neve,

tira o quimono que enlaça sua alma,

afoga seus queixumes no matcha,

quer a harmonia, a pureza e a tranquilidade.

Mergulha no silêncio, as mãos movem-se com graça e precisão,

economiza movimentos, contempla a beleza que a cerca.

Complexa e simples, polida e delicada,

seu universo imerso em uma xícara de chá.

n.n.a


Samaritano



Samaritano

Ninguém foi capaz de ver sua beleza,

o brilho dos olhos, a alma quebrada e o corpo ferido,

o nó na garganta, o choro contido, o acabrunhamento.

Os passantes não pararam,

nem o levita, nem o sacerdote.

A tempestade desabou sobre todos,

os olhos castanhos gritaram,

mas ninguém ouviu sua voz.

Atrás das nuvens de chumbo,

um arco coloriu o céu,

e o cheiro da terra molhada,

fez renascer a vida,

a bondade fez brotar esperança,

na terra ainda habitavam

raros samaritanos.


n.n.a


Foto: Metrô de São Petesburgo/Rússia

Raízes Lusitanas




Raízes Lusitanas

Silva, Pereira, Araújo,
Rodrigues, Dias, Freitas,
Fernandes, Rosário, 
Costa, Queiroz, Ferreira.
Portugueses e portuguesas
Bisavós, avós e pais,
vindos de uma terra além mar,
da Pátria Mãe Lusitana.
D’onde vieram meus antepassados?
Algarve, Porto, Alentejo,
Lisboa, Madeira,
Beiras ou de Açores?
O que buscavam em terras
do continente americano?
Conquistar, desbravar, recomeçar,
seda, ouro e especiarias?
Ah, alma portuguesa…
Abrindo mares nunca antes conhecidos,
peritos na arte de navegar,
enfrentando a fúria de ventos e tempestades.
Alma portuguesa impressa nos azulejos pintados de Lisboa,
na poesia de Luís Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa,
na arte médica filosófica de Abel Salazar,
no Fado, canção melancólica  portuguesa.
Sinto bem no fundo, que minha alma tem raízes lusitanas,
o gosto pelo vento, a melancolia do Oceano Atlântico,
o desejo dos conquistadores,
o inquietude nos grandes navegadores.
O gosto por azeitonas, vinho, bacalhau.
Cuscuz, caldo verde, lentilha,
Fios de ouro, papo de anjo,
Queijadinhas, alfenins e pão de Ló.
Minha alma?
Minha alma é Lusa,
minha alma é Brasileira.
Minha alma é Luso – Brasileira.

n.n.a

Cárcere Privado

Cárcere Privado

Entre quatro paredes,
sem falar e nem ver ninguém,
amarrado aos pés de uma cadeira,
atrás de portas e janelas fechadas,
preso na teia de suas tragédias pessoais,
perdeu o número de vezes que desejou a morte,
que desejou não mais ser, não mais existir,
depois de tantas lágrimas que ninguém viu,
colapsos e desassossegos,
descobriu que poderia sobreviver,
ainda trazia dentro de si um pássaro livre,
mesmo vivendo em cárcere privado.

n.n.a


Foto:Mari Suoheimo


Escrevi este poema depois de assistir o filme : “A pele em que habito”

Celebremos a Verdadeira Páscoa

Santo de Deus
E o Santo de Deus,
humilhou-se e fez-se servo.
Foi ferido por nossos pecados,
cuspido e maltratado pelos homens.
O mais formoso entre os milhares,
cuja bandeira é o amor.
morreu em uma rude cruz,
pendurado no madeiro.
Mas lá não ficou,
ao terceiro dia Ressuscitou.
O primogênito entre os mortos,
trouxe eterna salvação
a todo aquele que Nele crer.
n.n.a

Acordei Bemol

Acordei bemol

acordei bemol 
tudo estava sustenido 
sol fazia 
só não fazia sentido 

Paulo Leminski

Eucanaã Ferraz



Sob a luz ferroz do teu rosto

Amar um leão usa-se pouco,
porque não pode afagá-lo,
o  nosso desejo de afagá-lo,

como tantas vezes o cão ou o gato
aceitam-nos a mão a deslizar
sobre seu pêlo;

amar um leão não se devia,
agora que já não somos divinos,
quando a flauta que tudo

encantaria, gentes animais
pedras, nós a quebramos contra
a ventania: amar

um leão é só distância: tê-lo ao lado,
não poder beijá-lo, o deserto
que habita em torno dele;

era mais certo amar um barco,
era mais fácil amar um cavalo;
amar um leão é não poder amá-lo;

e nada que façamos adoça
o que nele nos ameaça se
amar um leão nos acontece:

à visão de nosso coração
ofertado, tudo nele se eriça,
seu desprezo cresce;

amar um leão, se nos matasse;
se nos matasse o leão que amamos
seria a dor maior, mais que esperada:

presas patas fúria cravadas em nossa carne;
mas o leão, que amamos,
não nos mata.

Eucanaã Ferraz
Jornal Rascunho
Abril 2012, p.38

Identidade sonoro musical

“Sou a mistura de sons e pausas, uma sequência de notas que  move-se na partitura da vida. Fico pianíssimo e às vezes soo fortíssimo. Passo por dissonâncias, acidentes, intervalos, pausas intermináveis e ritornellos. Tenho ornamentos mordentes, glissantes e trinados. A música está na ponta dos dedos, corre pelas veias, escorre pelo corpo. Eu a carrego dentro da mente e do coração”. Noemi

O espelho – Charles Baudelaire

Um homem horroroso entra e mira-se no espelho.
” Por que você se mira no espelho, já que isso lhe causa apenas desprazer?
E o homem horroroso responde-me: ” Senhor, conforme os imortais princípios de 89,
todas as pessoas são iguais nos seus direitos; possuo, pois, o direito de me mirar; com prazer
ou desprazer, isso só diz respeito à minha consciência”.
Em nome do bom-senso, eu estava sem dúvida, certo; porém, do ponto de vista legal, ele não
estava errado.
BAUDELAIRE, Charles. O esplim de Paris: pequenos poemas em prosa. São Paulo: martim Claret, 
2010

Morre Millôr aos 87 anos

MILLÔR FERNANDES

HAI- KAIS

“A vida é um saque
que se faz no espaço
entre o Tic e o Tac”

“Probleminhas terrenos:
Quem vive mais morre
morre menos?”

“O umbigo devia
ser só pro
amigo”

“Meu sonho é mixo;
ter a felicidade que
os outros põem no lixo”

“Nunca tive medo, gente
se onde há perigo,
alguém vai na frente”

“Prometer e
não cumprir:
taí viver”

Poema: Radiografia

 
 
 
 
 
 
 
 
radiografia
tenho um metro e meio de pele,
oito metros de tripas,
duas dezenas de falanges,
duzentos e seis ossos,
nós e fissuras no cérebro.
tenho  a lida do trabalho,
a casa pra limpar,
a louça pra lavar,
comida pra fazer,
e filho pra cuidar.
tenho quase quarenta anos,
dois ou três quilos a mais,
muitos cabelos brancos,
muitas perguntas a fazer
e poucas respostas a dar.
n.n.a

Livro: A arte não precisa Justificativa

Estou lendo este livro, me surpreendi positivamente, poucos autores mostram tanta lucidez quando falam do artista cristão e seu papel na sociedade onde vivemos.

” Já a arte não precisa de justificativa, ninguém precisa se desculpar por fazer arte. Os artistas não necessitam de justificativa, da mesma forma que os açougueiros, os jardineiros, os motoristas de táxi, os policiais ou as enfermeiras não precisam justificar com argumentos sagazes o porquê de estarem fazendo seu trabalho” ( 2010.p.47)

” A arte tem um lugar complexo na sociedade. Ela cria as imagens significativas pelas quais são expressas coisas importantes e comuns. Por meio da imagem artística, a essência de uma sociedade torna-se uma propriedade e uma realidade comuns.” (2010, p.52)

” A arte também pode dar forma ao nosso descontentamento, nosso desconforto em relação a certos fenômenos.Ela pode dar forma ao protesto. Se feito de maneira certa, ela não deve ser destrutiva ou fragmentar o que é bom. Usando uma linguagem atual, podemos traduzir a injunção bíblica ” ter fome e sede de justiça” por “protesto em amor. As ferramentas para isso podem ser os filmes, as canções, as pinturas, os desenhos animados e os slogans. A literatura e a poesia também têm suas funções”. (2010, p.53)

ROOKMAAKER, H.R. A arte não precisa de justificativa. Minas Gerais: Ultimato, 2010.

Poema em Libras : Equilíbrio

Equilíbrio

Da cabeça aos pés humano.
Humano da cabeça aos pés.
Orgânico, organizado, organismo.
Limitado por um tempo, um espaço e um corpo.
Que sente demais ou sente de menos.
Que tem demais ou tem de menos.
Que fala demais ou fala de menos.
Que come demais ou come de menos.
Que dorme demais ou dorme de menos.
Que trabalha demais ou trabalha de menos.
Que estuda demais ou estuda de menos.
Que sonha demais ou sonha de menos.
Equilíbrio? Simetria?
Haverá um humano equilibrado?
Soma, psique e pneuma,
Corpo, alma e espírito em perfeita harmonia?

n.n.a

Quem declama o poema é o André Oshiro ( 21anos, estudante e surdo). Trabalho com ele a bastante tempo e fico encantada com suas conquistas e progresso. Obrigado André !!!!

Quando o anjo passar…

German Lorca 1962
Quando o anjo passar…

Erguerei meus braços,
ficarei na ponta dos pés,
pedirei num sussurro:
– Leva-me contigo! Leva-me contigo!
Então subirei…
de alma lavada, pura, alva,
serei alçada as alturas,
para longe, bem longe.
Deixarei as perguntas para trás,
não desejarei mais nada, não viverei mais nesta jaula,
não sofrerei mais a dor do desamor,
que a todo instante parece cravejar a alma como uma faca afiada.
Contarei com a misericórdia e o amor
d’Aquele que não veio condenar,
que não veio atirar pedras,
mas amou de forma perfeita a todos.
n.n.a

Visita da Chuva – Cecília Meireles

Foto: German Lorca

Visita da Chuva

Estas altas árvores
são umas harpas verdes
com cordas de chuva
que tange o vento.

Vêm os sons mais claros
da amendoeira amarela,
pontuados na palma
das fortes folhas virentes.

Os sons mais frágeis nascem
na fronde da acácia leve,
com frouxos cachos de flores
e folhinhas paralelas.

Os sons mais graves escorrem
das negras mangueiras antigas,
de grossos, torcidos galhos,
franjados de parasitas.

Os sons mais longínquos e vagos
vêm dos finos ciprestes:
chegam-se e apagam-se, nebulosos,
desenham-se e desaparecem…




Cecília Meireles
Livro: Mar Absoluto e outros poemas: Retratos Naturais. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

Poema: Wonderful Word:



Wonderful Word

Wallace workaholic  incorrigível,

obcecado monta uma Workstation,

ouve Word Music,

lê  Wilde, Woof, Willian,

estuda a obra de Warhol,

admira-se como um dia viveu

sem Windows, Wi-fi e Webcan .


n.n.a

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