DOR
Olho a dor,
ela também olha pra mim,
desconfiada e tinhosa ,
não cede fácil,
não vai embora, não diz adeus.
Mora bem dentro de mim,
é intransferível,
uma senhora exigente,
não aceita respostas prontas
e conselhos de quem não a conhece bem de perto.
Como não posso fugir dela,
resolvi morrendo de medo,
encará-la de frente,
investigá-la,
sondá-la.
E para quem um dia pensou,
que o mundo era perfeito,
asséptico,
foi bem difícil aceitar
que existem perguntas sem respostas.
Parei de brigar,
resolvi com certo incômodo acolhê-la,
era tão incompreendida por todos,
a abracei,
me abracei.
Num gesto desesperado,
senti suas lágrimas correrem pela face,
ouvi seu pedido sussurrante de socorro,
o inconformismo que lhe revirava as entranhas,
segurei suas mãos tremulas e cheias de cicatrizes.
– Demora muito tempo (me disse baixinho)
talvez não chegue uma vida inteira,
para compreender o sentido da vida
suas alegrias, dores,
renúncias e ausências.
Abaixei os olhos,
chorei,
e disse comigo mesma:
– És sábia, senhora dor,
não posso e não consigo,
entender meu mundo interior,
que dirá o exterior.
Depois dessa conversa,
calei a boca e a alma,
ao menos por um instante.
n.n.a
n.n.a

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