Moça Curitibana


Moça Curitibana

Trazia dentro de si a intemperança das estações:
invernos sombrios e frios,  primaveras incandescentes,
verões iluminados e outonos impacientes.

Havia dentro dela um tempo não cronológico,
um tempo guiado por sensações sazonais,
por mudanças constantes e imprevisíveis de humor.

Quatro estações em um dia, quatro humores em um dia,
precisava carregar na bolsa: uma sobrinha e uma manta,
uma porção de alegria e outra de desalegria,
de contentamento e de descontentamento.

A cada manhã dedicava-se a garimpar o sitio arqueológico do seu coração
media, marcava  e tomava a picareta nas mãos,
meticulosamente escavava camada por camada,
tirava entulhos, pedras e  pedregulhos,
resíduos, restos de outros tempos e outras gerações.

Trabalhava com afinco,
dia a dia, debaixo de sol e chuva,
todos os dias do anos, e por anos sem fim,
buscando forças para enfrentar o tédio,
os ônibus lotados, as desgraças da vida,
as intempéries de ser gente.

A alma da moça, tão caprichosa
gemia a cada golpe, gritava em silêncio,
insistia em querer entender o mundo,
os desvarios, a loucura, a insanidade do bicho homem.

Não podia compreender a humanidade desumanizada,
a tolerância com a intolerância,
a religião que mata,
e os “ditos” motivos pacíficos das guerras.

Percebia que o mundo girava e que era apenas um cisco no universo,
não conseguia acompanhar a moda das roupas, dos cabelos e das unhas.
Vivia correndo atrás do prejuízo e parecia sempre chegar atrasada.

Não queria agradar a todos, nem poderia, mas obstinadamente tentou.
Desejou então amar a todos, sem distinção de cor e credo,
amar com um coração puro, amar com o coração de Deus.

Viu de tudo um pouco e ainda não viu o bastante,
sentiu mais do que deveria e espantou-se com a força das emoções,
quem poderia abarcar, aprisionar, reter a força de ser tudo de todas as maneiras?

Já não pertencia a um só lugar,
Escutava sinfonias, samba e bossa-nova,
comia barreado, strudel e kafta,
vestia roupa indiana e dançava fandango e tango.

pertencia ao mundo  real, dos homens e mulheres de carne e osso
pertencia ao mundo virtual, com seus atalhos e attachments.
pertencia ao bairro, a cidade, ao país e ao mundo.
Moça Curitibana Paranaense Brasileira Globalizada.

Noemi N. Ansay

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