Philip Glass – Metamorphosis

Metamorfose

 

não sou o que era antes

e nem serei amanhã o que sou hoje,

vivo a temeridade  e a exuberância

da metamorfose todos os dias.

 

 

larva, asquerosa, repugnante,

pupa pendurada em uma folha,

crisálida silenciosa, grávida de vida,

aguarda ser  borboleta.

( Noemi N. Ansay)

Imagem: http://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/falando-de-musica-philip-glass-faz-80-anos/

 

Sinfônico

Sinfônico

silvam sábias, sanhaços, saurás,
savacus, surucuás, saripocas,
suiriris, suimangas, saracuras,
sauveiros, serecóias, socós, seriemas,
supis, surucuás, soldadinhos, sargentos,
sinhás, socoí, sem-fins, solta-asas,
Sofrês, sofrês…de saudades.

Noemi N. Ansay

  • todos os nomes do poema são de pássaros brasileiros

 

Poema: Mulheres

Mulheres

Caso tenhas coragem,
verás até onde me estendo.
Rubra flor, perfumada e fértil de vida.
Braços longos, que se agarram a terra,
raízes de uma imensa sequoia.
Asas alvas, pássaro que fende os ares.
Quero raízes e quero voar,
sou toda contradição,
sou força e delicadeza,
sou totalidade e singularidade,
sou toda flor, árvore e pássaro.

Noemi N. Ansay
08/03/2017

Imagem: Gustav Klimt : Mother and Child

Filme iraniano “O apartamento” de Asghar Farhadi,

Assisti o filme “O Apartamento”, que venceu melhor filme estrangeiro no Oscar 2017, a película mostra o desmoronamento da alma e das relações humanas, a vida cotidiana de iranianos, a vida de professores e estudantes e os ensaios e a apresentação de uma peça de teatro.

Com o desenrolar das cenas o telespectador vivencia a banalização da violência contra mulher, o machismo nosso de cada dia, a culpa, a vergonha, as fragilidades e sobretudo a luta pela sobrevivência. Emocionante !

 

Calidoscópio

 

Calamidade no corpo, cabeça e coração.

No corpo cárcere, calafrio, congestão,

na cabeça cálculo, colapso, convulsão,

no coração cólera, culpa, corrupção.

Enclausurada em si questiona:

Como compreender o congelamento do coração?

Como viver em meio a contradição?

 

noemi n. ansay

Fevereiro – Matilde Campilho

Fevereiro
Escute só.
Isto é muito serio.
Ande,
escute que isto é sério.
O mundo está tremendamente esquisito.
Há dez anos atrás o Li** disse que existe uma rachadura em tudo
e que é assim que a luz entra
não sei se entendi.
(…)
O amor é um animal tão mutante,
com tantas divisões possíveis…
Lembra daqueles termómetros que usávamos na boca
quando éramos pequenininhos?
lembra da queda deles no chão?
então,
acho que o amor quando aparece
é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo
quando o vidro do termómetro se quebra,
o elemento químico se espalha,
e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas
mercúrio se multiplicando…
acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.
Ah, é..
Eu gosto de você…
A luz entrou torta por nós adentro,
Mas olhe..
Eu gosto de você..
(…)
Hoje ainda faz bastante frio.
(…)
A esta hora na Terra é metade Carnaval, metade conspiração,
metade medo, metade fé,
metade folia, metade desespero,
E provavelmente, a esta hora,
uma metade do mundo está dançando, e a outra metade dormindo.
(…)
Eu acredito que agora exista alguém profundamente acordado.
(…)
Escute, isto é serio.
Andamos crescendo juntos, distraidamente.
As árvores crescem connosco.
Nossa pele se estende.
Nosso entendimento teso, também.
(…)
Quanto ao um para um entre nós dois, isso logo se vê.
Não sei nada sobre a paixão,
suspeito que você também não.
Mas começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos:
dois para lá,
e dois para cá.
portanto, escute, isto é muito sério.
Isto é uma proposta ao trinta anos.
Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa,
vem comigo achar o metrónomo mágico entre a folhagem.
E no caminho até lá,
vem dançar comigo,
vem.

― Matilde Campilho

Para dias cinzentos: serenĭtas

 

Para dias cinzentos: serenĭtas

 

Só uma andorinha canta triste no alto de um pinheiro,

um coração, mesmo calejado, sente saudades,

o nó na garganta aperta quase todos os dias,

como alcançar a tal serenidade?

Se vou andando ao seu encontro,

ela corre, pra onde meus olhos não alcançam,

minha mente tão cansada,

a almeja, a busca,

mas ela parece fugir.

Serenĭtas, Serenĭtas,

Não fuja me mim,

seja minha amiga,

parceira, que me guia,

em meio das tempestades da vida.

Noemi N. Ansay

Poeticamente Vivos

Poeticamente Vivos

Para Valter Hugo Mãe

Nem precisaremos mais falar da Morte:

ela está sempre à espreita,

sempre alerta,

como um lobo feroz,

com seus dentes afiados,

sua cabeleira medonha,

seu bafo pútrido.

 

Nem falaremos de seus filhos,

todos hediondos, tal qual a mãe:

o ódio, a crueldade,

os extermínios,

os assassinatos,

a intolerância nossa de cada dia.

 

Nem veremos mais a seus espetáculos midiáticos,

suas tolices, suas piadas sujas,

sua raiva revestida de “bons modos”,

sua pele de cordeiro que abriga o lobo,

suas inconveniências,

sua pose de “boa moça.”

 

Nem comeremos a sua mesa:

seus manjares cobertos de discórdias,

adocicados com fel,

recheados da raiva deste mundo,

aromatizados com lascívia,

degenerados, frutos do mal.

 

Tão cansados, ultrajados e humilhados,

iremos mais adiante, mais profundo,

esqueceremos, ao menos, por um instante,

da Morte que nos assola, por tanto tempo,

olharemos além das aparências,

além do paraíso perdido.

 

Andaremos sobre pedras,

pelo caminho estreito,

talvez os pés sangrem,

a pele enrugue e seque,

os pensamentos desvaneçam

e desistir pareça ser a melhor opção.

 

Respiraremos,

como recém-natos,

ofegantes e quase sem forças,

voltaremos do fundo do poço,

vivos, amantes, amigos,

poetas, fraternos e ressurretos.

 

Insistiremos na Vida:

acordaremos,

depois da noite mais escura e longa,

faremos amor,

geraremos filhos e filhas,

seremos pais e mães,

trabalharemos com as mãos,

entoaremos velhas canções,

dançaremos sobre nosso desprezo,

escreveremos poesias,

beijaremos nossas feridas,

faremos as pazes com nosso coração partido,

divinos e humanos que somos, sobreviventes,

Viveremos !

 

noemi n. ansay

Vestígios

Vestígios

apagou as fotos,
rasurou todos os rascunhos,
eliminou as pegadas na areia,
destruiu as marcas, até as mais sutis.

eu, tão apegada a tudo,
tentei inutilmente,
seguir as migalhas de pão deixadas pelo caminho,
mas, tudo foi em vão.

ficaram só as memórias fossilizadas,
de um tempo primaveril,
do cheiro de jasmim em flor,
do gosto de pêssegos na boca.

hoje, toda vez que o vento pergunta:

-onde está o menino do campo?
minha alma responde em silêncio:
– em meu coração.

n.n.a

A eternidade de Deus habita em nós por meio do amor!

Amar nos faz eternos !!!!! 

A eternidade de Deus habita em nós por meio do amor!

Mesmo distante do Mar

 

Porque aquele dia foi o mais iluminado de todos os que já vivi, porque o vento tocava suavemente um canavial e refletia uma luz terna em meus olhos, porque até as ruínas daquela velha escola falavam no meio daquela estrada poeirenta. Porque havia em meu coração um pulsar destemido, uma coragem, pra além do meu costumeiro medo, porque as cicatrizes eram tão similares, que chegavam a se confundir, porque tudo que eu queria era ver o avesso e o profundo, porque desejei tanto dar e receber afeição. Talvez, porque ainda persista viver em mim, uma menina mimada, que nunca conseguiu lidar com perdas e suas consequências. Por isso, pisei descalça, me despi, me derramei, fiquei vulnerável, quase enlouqueci. Porque era preciso, porque era urgente, porque não poderia ser diferente, apesar de todas as evidências contrárias aquela sede de viver. Porque chuviscos são doces. Porque a música não precisa de explicações. Porque mesmo vivendo distante do mar, posso senti-lo todos os dias,  sinto seu frescor em meus pés e sua profundidade por todo o meu ser. Porque a vida tem caminhos desconhecidos, às vezes pedregosos, às vezes floridos, às vezes temidos e às vezes tão amados. Porque viver é amar e amar é infinitamente mais desejável e nobre do que não amar.

noemi n.ansay

Anatomia do Rosto II (Liliane Bizineche)

Anatomia do Rosto II

Para Liliana Bizineche



Nada se escondia naquele rosto,
nem o inverno e nem o verão,
tudo era translúcido,
quase transparente.

Cada mínima emoção,
fluía como um rio de águas profundas,
que extravasava as margens,
encharcando todos da plateia ouvinte,

Todos viajavam em sua voz,
mezzo-soprano,
serena, doce, melodiosa
forte e determinada.

Chorei, sorri, salmodiei,
senti uma grande paz e alegria,
minha alma cantou com ela:
“They Say It’s Wonderful”.

Ah! Que irrecusável convite aquele rosto fazia:

– Viva, festeje, celebre a vida !
– Viva a plenitude de ser quem és !
–  Viva para amar e ser amado !


Noemi N. Ansay 

 04/12/2016

Dona Chuva prazenteira

 
 

Dona Chuva prazenteira,
senhora de si,
beija terna e amavelmente,
a terra fértil e clemente.

Às vezes, esbraveja,
troveja do alto céu,
sem fazer cerimônia,
encharca tudo que vê pela frente.

Às vezes, suave e meiga
sussurra aos ouvintes atentos:
– Silêncio…respire fundo, descanse,
durma mais um pouquinho e sonhe.

Nestes dias de chuva,
meu coração agradece,
o frescor das águas,
a renovação da vida,
a presença divina na criação,
o Amor de Deus,
que conforta e acalenta meu ser.

Noemi N.Ansay

Poemas para uma canção – Sébastien Tellier L’amour naissant –

Exercícios poéticos com querid@s amig@s

L’amour Naissant
(Noemi N. Ansay)

Ela correu,
Ele hesitou.
Ela, tão segura do que sentia,
venceu suas inseguranças,
foi ao encontro do infinito azul.
Ele, preso em uma camisa de força,
com um medo avassalador,
paralisou frente ao mar.
Ela, insistiu,
olhou, sorriu, correu mais um quilômetro,
não desistiria facilmente.
Depois de longos dias e noites
sem mais alimentar esperanças,
Ela parou.
e Ele correu.
As distâncias foram
diminuindo e aumentando,
correriam juntos?

Ela correu,
Ele correu.
Difícil jornada a ser trilhada,
era o amor nascendo,
mas, era só um sonho.
————————————————————————————————————————

L’amour Naissant
(Fábio D.A.L. Silva)

Amores aproximam-se
Na quase tempestade
Plena tarde
Neblina…

Amados passos
Dos amantes, cravam-se
Na areia fina
Que alinhava trilha
Sob a intempérie…

O amor que sucede, então
É amado e amante
Claro alvejante do horizonte
Límpido guia que é
Consome distâncias…

Amores aproximam-se
E amam-se
Apesar da névoa
Apesar da tarde
Apesar da tempestade.

Poema: Dia Frio no Hospital

Hospital militar de Trois Quartiers, na França, durante a Primeira Guerra Mundial (Foto: AFP)


Dia Frio no Hospital

A dor é fria e viscosa,
às vezes chega de fininho
e às vezes de forma abrupta e violenta.
Uma coisa é certa, a dor não faz cerimônia,
insuportável, tinhosa e intransferível,
não cede fácil, faz pirraça e é exigente.

Deitada na maca do hospital, 
com os sentidos aguçados:
sinto um gosto amargo na boca, 

ouço vozes e gemidos, 
vejo  as marcas da dor em corpos seminus,
crianças choram e velhos resmungam.

Atentos, enfermeiros e médicos,
sentem a atmosfera carregada de padecimento,
contra-atacam como podem:
profissionalismo, medicamentos, intervenções,
bom humor, alegria, respeito e pequenos elogios.
Ah… a força regeneradora do AMOR.

Faz frio em Curitiba,
sinto meus pés congelados,
o hospital está cheio,
a dor humana não tem trégua,
mesmo assim,
não arredam os pés dali:
a Fé, a Esperança e o Amor.

Noemi N. Ansay
20/05/2016.

Bella e Chagall ( Noemi N. Ansay)

Chagall,

na tela as cores do amor,

no entorno: guerra, tristeza e dor,

místico, mágico e sonhador,

com um toque de Midas,

transformou a crueldade,

em uma perspectiva poética de vida.

Bella,

ser alado, material e espiritual,

escritora de “Luzes Acesas”

intelectual, mulher e mãe,

voa nos ares de Vitebsk,

é a “noiva das luvas pretas”,

é a moça do “colar branco”.

Num passeio, “The promenade”,

o céu é tão alvo,

vê-se a cidade distante,

e um corpo feminino, rosado,

tão belo, ondula pelos ares,

na terra, com os pés bem firmados,

o homem, segura um pássaro,

sorri, extasiado com a força do amor.

Ela quer voar,

Ele tem os pés no chão,

Um dia voariam juntos,

sobre a cidade,

o amor e a arte os levariam para além do tempo e espaço.

Noemi N.Ansay

“Haverá sempre crianças que amarão a pureza, apesar do inferno criado pelos homens.” (Chagall)

A criança ferida – Margaret Atwood

A criança ferida

A criança ferida vai mordê-lo.
A criança ferida vai se tornar
uma criatura assustadora
e mordê-lo mesmo onde você está.

A criança ferida verá a pele se formar
sobre o ferimento que recebeu você
– recebeu não, por que o ferimento
não é um presente, um presente é aceito
livremente, e a criança não teve escolha.

Ela vai formar uma pele sobre o ferimento,
o ferimento acumulado, o ferimento que atravessa gerações
e que você extraiu com forças de si mesmo feito uma bala
e implantou na carne da criança –
uma pele um couro um pelo
uma crosta escaldada,
e dentes afiados de peixe
como os de um bebê deformado –
e vai mordê-lo

e você vai dizer que não vale
como é o seu hábito
e haverá uma luta
porque você vai tirar a luta da caixa
com o rótulo Lutas que guarda com tanto cuidado
para as emergências, e esta é uma delas,
e a criança ferida perderá a luta
e irá cambaleando
para os subúrbios, e causará
pânico nas drogarias e estrago
nos churrascos
e eles dirão Ajudem ajudem um monstro
e saíra no noticiário

e ela será caçada
com cães, e deixará um rastro
de cabelo, pelo, escamas e dentes de leite, e lágrimas
de onde foi rasgada
com vidro quebrado e coisas do tipo

e vai se esconder em canos de esgoto
em depósitos de ferramentas, debaixo de arbustos,
lambendo sua ferida, sua raiva,
a raiva que recebeu de você
e vai se arrastar até o poço

o lago o riacho o reservatório
porque tem sede
porque é monstruosa
com sua sede feroz
que parece toda coberta de espinhas

e os cães e caçadores vão encontrá-la
e ela ficará encurralada
e uivará sobre injustiças
e vão rasgar seu corpo e abri-lo
e vão comer seu coração
e todos darão vivas,
Graças a deus acabou !

E seu sangue escorrerá para dentro d’água
e você vai bebê-lo todos os dias.

ATWOOD, Margaret. A porta.  Rio de Janeiro: Ricco, 2013. p. 77,78

http://zip.net/bgkymr

A lição dos poetas – Jacques Rancière

A lição dos poetas
É preciso aprender. Todos os homens têm em comum essa capacidade de experimentar  o prazer e a pena. 
Racine não tem vergonha de ser o que é: um miserável. Ele aprende Eurípedes e Virgílio decor, como um papagaio. Ele procura traduzi-los, decompõe suas expressões, recompõe de outra maneira. Ele sabe que ser poeta é traduzir duas vezes: traduzir em versos franceses a dor de uma mãe, a cólera de uma rainha ou a fúria de uma amante é também traduzir a tradução que Eurípedes ou Virgílio fizeram. […] Esse grande poeta supõe, exatamente, o contrário: ele só trabalha, só se esforça tanto, apaga cada palavra, modifica cada expressão porque espera que seus leitores compreenderão tudo, precisamente como ele próprio compreende.
[…] o poema é a ausência de outro poema.
Todo o esforço, todo o trabalho do poeta é suscitar essa aura em torno de cada palavra da expressão. É por isso que ele analise, disseca, traduz as expressões dos outros, que ele apaga e corrige sem cessar as suas. Ele se esforça para tudo dizer, sabendo que não pode dizer tudo, mas que é essa tensão incondicional do tradutor que abre a possibilidade de outra tensão, de outra vontade: a língua não permite dizer tudo, e ” é preciso que eu recorra e eu próprio gênio, ao gênio de todos os homens, para adivinhar o que Racine quis dizer, o que ele diria na qualidade de homem, o que ele diz quando não fala, o que não pode dizer enquanto não é somente poeta”.
Modéstia verdadeira do “gênio”, isto é,do artista emancipado: ele emprega toda sua potência, toda sua arte em nos mostrar seu poema como ausência de um outro, cujo conhecimento ele nos concede o crédito de possuir tão bem quanto ele  próprio.
RANCIÈRE, J. O mestre Ignorante. São Paulo: Idêntica, 2013.

Um site WordPress.com.

Acima ↑