Oração de um mendigo
Pai,
desde o alto céu ouve a minha prece,
imploro humildemente por minha alma,
miserável homem que sou, camumbembe,
desvalido e indigente.
Sou este sapato velho,
este pão embolorado,
este resto no prato,
esta carne que não sente mais nada.
Por dias e noites,
de baixo da chuva e do sol,
em dias quentes e frios,
fico a beira do caminho,
Te digo que não compreendo,
pois não mendigo pão, não mendigo moedas
que sobraram no bolso de alguém,
não mendigo favores de um passante.
Descobri que há mendigos em finas casas,
em palácios e escritórios,
Descobri que não se mendiga
apenas por um prato de comida,
Descobri que há coisas piores
que se pode mendigar…
Pai,
Eu não roubei, não matei e não subornei,
mas perdi a vontade de viver,
perdi meus sonhos
em algum lugar distante
e não os encontro mais,
mendigo porque me perdi
e não encontro mais
o caminho de casa.
Pai,
Minha maior miséria
é ter me iludido ao meu próprio respeito,
meu maior engano,
habitando em minha mente e coração,
Mendigo
por analgésicos,
para dores existenciais,
analgésicos,
que abrandem minha dor de viver.
Pai,
Solicito com insistência,
peço com clemência,
que sacies minha fome, sede e frio,
minha desesperança, minha desilusão no humano,
que me tragas o sentido de viver,
em meio a um mundo cheio de dor e morte.

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